Não Calarão Nossa Voz – Joca Martins e Fabiano Bacchieri


17ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2009.

NÃO CALARÃO NOSSA VOZ

Letra: Rodrigo Bauer
Música: Joca Martins
Intérpretes: Joca Martins e Fabiano Bacchieri

Meu canto vem do galpão mais tosco e mais primitivo…
É um cantochão instintivo, templado a fogo de chão!
Jamais será redomão, no campo aberto escarceia…
Sem maneador ou maneia que lhe reprima o entono,
Não bajula, não tem dono, não cala nem cabresteia!

Meu verso fez as estradas, os atalhos e os caminhos…
Sempre soube andar sozinho, abrindo mato em picadas…
No ermo ou na encruzilhada só tenho Deus por patrão!
Escuto o meu coração, nenhum modismo daninho
Me leva pelo caminho dos que não tem opinião!

Protesto contra a disputa entre irmãos do mesmo canto;
Contra isso eu me levanto e entendam minha conduta:
A continuar nessa luta que põe irmão contra irmão,
Disse Hernández, de antemão, que os de fora, inatingidos,
Chegarão despercebidos e, assim, nos devorarão!

Sou parte desta querência, não sesteio em sombra alheia…
Conheço a parada feia sem tironear a existência!
Campo e rio trago na essência do barro que me gerou;
Seiva agreste que plasmou minha raça nas planuras,
Com vento que, nas lonjuras, Deus que era oleiro soprou!

Bem mais que simples cantores, somos a voz de uma raça,
Mesclando história e fumaça, estâncias e corredores…
Carreteiros, domadores, que vieram antes de nós
Seguem conosco e, após, vão prosseguir sendo eternos.
Pois mesmo os tempos modernos não calarão nossa voz!

Mato Ou Vendo Meu Cavalo – Luiz Carlos Borges


27ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1997.

MATO OU VENDO MEU CAVALO

Letra: Miguel Bicca e Rodrigo Bauer
Música: Luiz Carlos Borges
Intérprete: Luiz Carlos Borges

Meu douradilho retaco, frente aberta e rabicano
tem orelhas de tesoura e os olhos de gavião…
Encontro de pechar touro numa quina de rodeio,
de ganacha palmo e meio e em cada venta um vulcão!

Fomos dois potros selvagens correndo bois pela vida,
sem pensar na recolhida que se desenha no chão…
Entre o laço e a correria nos regamos de impaciência
e avistamos a querência partindo de caminhão!

O tempo levou meus gados, fez mudança pra cidade,
deixou somente a saudade e um douradilho sem viço…
Envelhecemos na lida, tomando chuva e mormaço
e o destino, num só traço, nos fez irmãos no serviço!

Será que depois de velho, deixarei morrer de sede
quem teve trote de rede, já que não posso montá-lo…
Não quero ver o janeiro lhe derrubar dum laçaço;
afinal o que é que faço: Mato ou Vendo Meu Cavalo?

Quem sabe num mês de agosto, duro de frio e de geada
cercado pela corvada, caia num último pialo…
Essa dúvida me cala, me deixa o peito em pedaços;
afinal o que é que faço: Mato ou Vendo Meu Cavalo?

Lunarejo – Beto Ventura


7ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – 2007.

LUNAREJO

Letra: Ramiro Amorim
Música: Beto Ventura
Intérprete: Beto Ventura

O céu da noite xirua,
Acalentando desejos,
Mandou o vento, em solfejos,
Pra cantar na pampa nua;
E o brilho claro da lua,
Tal fosse um campeiro beijo
Templou no meu lunarejo
Estilo e alma charrua.

Apadrinhado pelo vento,
Com a lua por madrinha,
Com garbo o flete caminha,
De postura é um monumento;
De patas: um pensamento!
– Cantando este verso eu vejo –
Meu pingaço lunarejo,
De apero e laço nos tentos!

Flete Bueno – De patrão! –
Bem manso e doce de freio.
Para apartar em rodeio
E roubar moça em procissão!

Cuidando qualquer negaça
– De orelhas retesadas –
Pressente uma paleteada
Com a valentia da raça.
Pampas, oscos e fumaças,
Nestes dias de mormaço,
Viram crescer o meu braço
Num tiro de doze braças.

Vai lunarejo gateado
“Pisando nas borboleta”
Pechando boi na paleta,
Esbarrando “bem sentado!”.
Pingaço do meu agrado
Pra apartar boi na barbela,
E me levar pro rancho dela
Num tranquito debochado.

Forasteiro – Éder Goulart


12ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2012.
Composição premiada com o Terceiro Lugar.

FORASTEIRO

Letra: Jean Taruhn
Melodia: Éder Goulart
Intérprete: Éder Goulart

Até onde vai o amor
Antes de virar prisão?
Esse teu beijo é entrega
Ou medo de solidão?
Qual o tom em que o sim
Passa ser um claro não?
Será o fim da luz o poente
Ou a margem da escuridão?

Que palavra une os lábios,
E qual a que cerra os dentes?
Se a verdade tem dois lados
Como encará-la de frente?
Se sou eu um forasteiro
Nos dois lados da fronteira
Como saber quais as cores
Ausentes da minha bandeira?

Qual a linha que divide
A minha aldeia da tua?
Em que pilares de vento
Esta fronteira flutua?
É tudo risca de giz
Ou há um abismo, deveras?
Nem inverno nem verão
Quero eternas primaveras

Entre o Basto e o Chapéu – Giordan Gomes


8º Canto Moleque da Canção Nativa – Candiota – RS – 1998.
Composição premiada com a Melhor Melodia.

ENTRE O BASTO E O CHAPÉU

Letra: Lisandro Amaral
Música: Lisandro Amaral
Intérprete: Giordan Gomes

Peonada buena repontando a gadaria
Antes que o dia ponha tom no azul do céu,
Já quebram vento no pêlo da cavalhada,
Alma encordoada, entre o basto e o chapéu.

Pego-lhe o grito, correteando as chimarronas,
Engrosso o timbre pra cantar nas madrugadas…
Bem redomão este gateado que hoje encilho,
Já sabe o trilho e o rigor das invernadas.

É um nobre hino este som que vem da pampa
E embala a estampa de homens livres da ganância.
A calejar tempos e sonhos de a cavalo,
Antes que o galo queira despertar a estância.

Carrega o corpo, este é pingaço, Julio véio,
Se vai ao mato a mascarada do patrão…
Leva-lhe a mão no doze braça e empurra a trança,
Que ela se amansa quando o pealo entra “nas mão”!

Tiniu a espora do ginete Preto Soares,
Vem pelos ares um bagual mouro bragado,
Que se topou com a bravura d’um fronteiro,
Garrão campeiro de lidar co’s aporreados.