Homens e Tentos – Joca Martins


1º Canto Nativo de Porto Alegre – Porto Alegre – RS – 2004.

HOMENS E TENTOS

Letra: Rodrigo Bauer
Música: Joca Martins
Intérprete: Joca Martins

Amansei as horas, desquinando tentos
quando a chuva forte vinha sem cessar…
O campeiro sabe usar esses momentos
pra fazer trançados e pra meditar…

O que parecia uma manhã bonita
derramava água já de relancina
e a faca pitoca tão desgastadita
retalhava o couro de uma rês brasina.

Vez por outra eu vejo a chuva feito um pranto…
Desce tanta água que a visão transborda!
O ovelheiro dorme no galpão enquanto
das minhas mãos maduras vão surgindo as cordas…

Vou trançando um laço de seis tentos fortes,
e pensando em tudo o que fazer depois;
até dar-me conta dessa estranha sorte
que é a dos laços novos que já foram bois!

O boi que se sangra e sente a dor do aço
prova uma ironia que há nesse ritual…
Ele se renega preso pelo laço
feito com o couro de algum ancestral!

A melena, aos poucos, já me vem grisalha;
tranço os meus recuerdos que não voltam mais…
Se até mesmo um laço rompe ou se ramalha,
que dizer de nós que somos tão iguais!

Galoponeiros – Ricardo Coelho e Francisco Teixeira


4ª Bicuíra da Canção Nativa – Rio Grande – RS – 2008.
Composição premiada com o Segundo Lugar.

GALPONEIROS

Letra: Lauro Antônio Corrêa Simões
Música: Ricardo Coelho
Intérprete: Ricardo Coelho e Francisco Teixeira

Olhar no campo, pingo encilhado, quadro perfeito!
Do parapeito às flores do campo forma um jardim,
Fechando um baio, se vê no gesto do peão campeiro
Que um galponeiro conhece as manhas do graxaim.

Um galponeiro remalha o laço dos preconceitos,
Trança seu jeito, tento a tento sua razão…
Sabe que a vida, por mais gaúcho que um índio seja,
Também mareja os grandes olhos do coração.

Um galponeiro guarda seus sonhos de juventude:
Taipa de açude, campos abertos, calor de brasas…
Um galponeiro canta sua terra, nela se ampara,
E traz na cara a paz fraterna de um “oh, de casa!”

Ser galponeiro é gana e luta, fé e conquista,
Potro na pista, pêlo de bronze, naipe orelhano.
É o pé no estribo que está no sangue de um moço taita
E ao sul da pátria leva a bandeira dos Provincianos.

Um galponeiro traz talareios de um par de esporas,
Que, capo afora, tornou-se, ao largo, um bem de raíz.
Pois, mesmo xucro, criado guaxo, n’alguma estância,
Sabe a importância do sentimento pra ser feliz.

Feito Dessas Coisas Lá de Fora – Jari Terres e Gustavo Teixeira


11º Acampamento da Canção Nativa – Campo Bom – RS – 2012.

FEITO DESSAS COISAS LÁ DE FORA

Letra: Xirú Antunes
Música: Zé Renato Daudt
Intérpretes: Jari Terres e Gustavo Teixeira

Sempre uma copla me chega assim,
com jeito simples de campo e mel,
que adoça a alma, olfateia pão,
“vidalera copla”,
das índias tardes do meu rincão.

Sempre um recuerdo vem junto dela
amarelado de luz e de céu,
de brisa suave, de mato e pitanga,
do vidro da sanga,
sagradas memórias do meu velho chão.

Sempre que posso, remexo os “recuerdos”,
de couro, pelego, cacimba e galpão,
de pedra, silêncio, potreiro e mangueira
cabresto e espora,
saudosa do abraço nos meus “garrão”.

Porque sou feito dessas coisas lá de fora,
daquele barro que a mangueira sova,
daquele apojo que inaugura a aurora,
do galpãozito ainda mesclado de velhas históias…

Quase sempre de alma branca me vou,
me vou sem os ruflos de matéria,
esboçando a semeadura de um poema,
de saudade mansa, que por vezes, enfumaça,
as noites morenas deste coração.

Eguada – Rogério Melo


5º Um Canto Para Martín Fierro – Santana do Livramento – RS – 2003.

EGUADA

Letra: Rogério Ávila
Música: Fabrício Harden
Intérprete: Rogério Melo

A eguada toco por diante
E o cincerro vai batendo,
A lo largo, no corredor…
As mágoas deixo pra trás
Junto dos rastros do meu zaino tranqueador.

Chapéu tapeado… olhar campeiro
E, num reponte, de égua por diante
É mais distante o meu lugar.
Talvez a estrada e esta eguada
Adoce a alma de quem queira regressar.

Beija a querência
O brilho da lua,
Serena os bastos
E o verde do pasto,
O teu olhar prenuncia…

Canta a espora
Pela noite afora,
Pois falta um eito
Pra rasgar o peito
O clarear do dia.

Talvez encontre, adiante, na estrada
Uma lagoa empastada pra esta eguada “ressojar”,
Afroxe os arreios e saco o freio
Que é pra meu zaino poder pastar.

Assim, de regresso, cruzo a querência
E repecho na essência que pensei desgarrada.
O sol destapa, clareia o horizonte,
E solto minha alma que vinha, em reponte,
Junto da eguada.

Milonga Praiana – Kako Xavier e Joca Martins


15º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 1999.
Composição premiada como Música Mais Popular.

MILONGA PRAIANA

Letra: Gujo Teixeira e Zé Renato Daudt
Música: Kako Xavier e Joca Martins
Intérpretes: Kako Xavier e Joca Martins

Manhã cedo na campanha
Um barreiro vem cantar,
Acordou o meu violão
E me pôs a milonguear.

Mesmo sol clareou aqui,
Na beleza desse mar…
Coração bate um tambor,
Convidando pra cantar.

O meu mate traz recuerdos
De um amigo pescador,
Da suas redes na lagoa
Quando o sol vinha a se pôr.

Chimarrão me traz o gosto
E uma lembrança campeira,
Pela voz de um amigo meu
Que cantava na fronteira.

Eu sou do campo, eu sou do litoral!
Um sul imenso pras pegadas onde eu ande…
A nossa gente é: coração, terra e areia!
Numa só voz a gente canta o Rio Grande!

Vai um arremeço de rede,
Vai uma armada de laço,
Cada um na sua sina,
Cada um no seu compasso.

Puxa no laço sua lida,
Puxa na rédea o sustento…
Que o destino tá por conta
Do fio da malha ou do tento.

Tantos sonhos diferentes
Neste sul que somos nós…
Manda a milonga praiana
Pra cantar numa só voz!

Da Minha Cordeona Pra Tua – Edilberto Bérgamo e Leonel Gomez


15ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2007.
Composição que conquistou os prêmios de Segundo Lugar e Melhor Melodia.

DA MINHA CORDEONA PRA TUA

Letra: Fernando Soares e Evair Gomez
Música: Leonel Gomez
Intérpretes: Edilberto Bérgamo e Leonel Gomez

Cordeona que embala o silêncio num rancho de campo,
Golpeada por mão calejada de um velho estradear.
Debocha num mesmo resmungo que a noite atropela
E benze com a poeira que brota de cada lugar.

Cordeona que invade querências e ranchos de campo,
Bandeia fronteiras hermanas de pampa e cantar,
Reponta a voz castelhana com a brasa na alma
E mescla o tino mais xucro pra um taura escutar.

A minha cordeona e a tua, idioma charrua…
Que ao clarão da lua ‘interte’ um pulpero… Um pulpero.
Eu sigo marcando o compasso com a força do braço,
Entrego min’alma assim… Milongueira!
E eu repassando o segredo pra ponta dos dedos, despejo…
Despejo min’alma por chamamecera… Por chamamecera!

Cordeona que guarda relinchos e um berro de touro,
A grito e a cachorro tu tocas aquilo que amas…
O rancho, a vida, a florzita mais linda,
E um dia miraste na pedra da beira da sanga.

Cordeona que traz no teu toque um jeito matreiro,
Conhece um fronteiro e comungas um sonho liberto.
Cruzando canhadas colheste de um campo florido
E trouxeste contigo uma flor no jaleco.

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Calavera – Leonel Gomez


16ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2005.
Composição premiada com o Segundo Lugar, Melhor Arranjo, Melhor Grupo Instrumental e Melhor Instrumentista para o Leonel Gomez.

CALAVERA

Letra: Rogério Ávila
Música: Leonel Gomez
Intérprete: Leonel Gomez

A adaga no rumo certo
Donde pulsa o sangrador,
Não há espaço pra dor
E a sangria se apresenta
No calor rubro que aquenta
O grito do desaforo,
Que a honra de um índio touro
Na prateada se sustenta!

Calavera! Foi o grito,
No ranchito de má fama,
Dos pingo atado nas trama
Ficou uma baia lunanca,
Com o poncho por riba d’anca
Que muito serviu de abrigo
Pra o maula que foi ferido
De morte, por arma branca!

Comércio de tava e truco
Canha branca e china pobre
A donde se jogam uns cobre
Toreando a volta da sorte…
Mas nunca se perde o norte
Tampouco se facilita
Pensando no que se grita,
Pra não se topar com a morte!

O corpo no chão de saibro
E o baralho sobre a mesa…
Foi a falta de destreza
E o grito de desacato,
Que mataram o mulato
Nesta carpeta frontera,
Pois todos são calavera,
Mas nenhum carrega o fato!

Depois chegaram os milico
E o pançudo comissário,
Souberam por comentário
E a história, nem que não queira
Se quedo por verdadeira
Resumida ao chão batido
– Que um maula tinha morrido,
Na adaga d’um calavera!

Bailanta da Tradição – Alberto Ventura Neto


6ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2006.
Composição premiada com Música Mais Popular nas duas fases da Sapecada (estadual e nacional).

BAILANTA DA TRADIÇÃO

Letra: Adilson Rogério de Oliveira
Música: Adilson Rogério de Oliveira
Intérprete: Alberto Ventura Neto

Prosa:
– Buena tio Beto, onde é que vai com essa pressa, óme?
– Tô indo num baile na Casa da Tradição.
– Casa da Tradição, mas onde é que é isso?
– Tu não conhece?
– Nãhã!
– Esse salão foi construído a muito tempo atrás
com a ajuda de dois C.T.Gs lageanos.
– Mas então me conte esta história direitinho.
– Então me acompanhe que no caminho eu te conto,
e a história foi mais ou menos assim companheiro…
– Vamo vê então…

Passe o sebo, lustre as botas
Pra relampear no salão
Vai ter bailanta animada
Na Casa da Tradição

Meados de 64, um compromisso foi firmado
Entre o Planalto Lageano e o Barbicacho Colorado
Erguer uma casa de baile, na cancha do Conta Dinheiro
“Vistando” o “Morro do Tributo” e a velha estrada dos tropeiros

Passe o sebo, lustre as botas
Pra relampear no salão
Vai ter bailanta animada
Na Casa da Tradição

O baile de inauguração, foi um evento importante
Os convidados que não foram, mandaram representante
A Tia Lelé e o Nante Arruda, dançaram chote a noite inteira
No outro dia, a pedidos ainda teve a domingueira.

Passe o sebo, lustre as botas
Pra relampear no salão
Vai ter bailanta animada
Na Casa da Tradição

Celso Scoz, grande guerreiro, fez numa certa ocasião
Baile com grupo Os Serranos, mas tchê que baita bailão
E outros fandangos se passaram, gaiteiros que ali brilharam
Edson Arruda e Tio Alvino no palco assim tocavam…

Os bailes de antigamente, eram sempre bem animados
Pois era só roncar uma gaita e ninguém ficava sentado
Tenho saudade deste tempo, lhes conto com muita emoção
Porque eu já dancei um baile, na Casa da Tradição.

Passe o sebo, lustre as botas
Pra relampear no salão
Vai ter bailanta animada
Na Casa da Tradição

A Contragosto – David Menezes Jr.


15º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 1999.

A CONTRAGOSTO

Letra: Valdo Nóbrega
Música: Nilo Bairros de Brum
Intérprete: Davi Menezes Jr.

Ela disse: Pega a estrada,
Por favor, não se retarde!
Fui saindo a contragosto,
Não que eu fosse covarde.
Ou este amor durou pouco
Ou percebi muito tarde.

Saiu o cusco, assombrado,
Com o rabo entre ‘as perna’,
Um gato, cara lambida,
Se arrepiou com a baderna.
O trote mudou de jeito
Com essas prendas modernas!

Sou macho, mas não de ferro,
Sinto ciúme da maldita!
Só falta um venta furada
Firmatear com essa gasguita…
Acariciar meu guaipeca
E pedir pé pra caturrita.

Botei o chapéu nos olhos,
Cismado com o jeito dela.
Até meu pingo tordilho
Quando passou a cancela,
Ficou torcendo o pescoço,
Querendo ficar com ela!

Vaneira da Bossoroca – Leopoldo Rassier


5ª Ramada da Canção Nativa – Encruzilhada do Sul – RS – 1994.*

VANEIRA DA BOSSOROCA

Letra: Jayme Caetano Braun
Melodia: Pedro Guerra
Intérprete: Leopoldo Rassier

Velha vaneira baguala
que estufa os foles da gaita,
riscada de unha de taita,
cheia de furo de bala;
tomando conta da sala,
o mesmo que lagartixa,
e o chinaredo cochicha
quando seu ronco se cala!

Se mistura no balanço
a poeira do chão batido
e os babados do vestido
corcoveiam sem descanso…
e o índio metido a ganso,
grudado à fita vermelha,
fica boqueando na orelha,
num jeitão de sorro manso!

A fumaça do candeeiro
se adelgaça e se esparrama,
perseguindo alguma dama
de sorriso feiticeiro!
E nunca falta um salseiro,
é tradição secular,
e os índios que vem mamar
na garrafa do gaiteiro!

Vaneira que nasceu guaxa
na caixa de uma cordeona,
mamando numa “siá dona”
dessas que escondem a graxa;
andou na Pampa buenacha,
queimada de sol e brasa,
e quando não tinha casa,
dormia dentro da caixa!

Nos comércios de carreira,
nos velórios e carpetas,
sobre a quincha das carretas,
ouvindo truco e primeiras…
Nos bochinchos de fronteira
nunca vai faltar um taita
pra dar um talho na gaita
e deixar livre a vaneira!

O próprio índio que toca
essa vaneira machaça
é um sacerdote da raça
nas bruxarias que invoca,
e os arrepios que provoca,
nesse galope estendido,
nos levam ao chão batido
dos ranchos da Bossoroca!