Pela Voz do Campo – Lisandro Amaral


6º Cante Uma Canção em Vacaria – Vacaria – RS – 2008.*

PELA VOZ DO CAMPO

Letra: Lisandro Amaral
Música: Cristian Camargo
Intérprete: Lisandro Amaral

Amigos ventos já andavam brabos,
calando antigos ancestrais e taitas,
quando saltamos de guitarra e verso
trançando alma nos botões da gaita.

Se o barbicacho, deste jeito antigo,
firmou dos ventos nossos “gens” vaqueanos,
tenho a certeza que não morreremos
na voz terrunha de um guri pampeano.

Sobram rancheiras, nascem chamarritas,
prendas bonitas molham corações
quando meu verso ganha céu e estrela
na luz da alma das tuas canções.

Ganhei mais alma
quando os teus acordes
banharam puros,
simplesmente, os frutos…
… que plantamos livres
para os que passaram,
e cantar aos que ficaram
ouvindo um canto esperança.

E tudo o que foi lembrança:
rancheiras e chamarritas,
vaneiras, toadas bonitas,
pra continuarmos a trança
e todo laço esperança
que traz, na armada, a riqueza
e tem a luz e a firmeza
no olhar de cada criança.

Por certo, a noite – feiticeira amiga –
se fez luzeiro nalgum pirilampo.
Cai um poema – oração e canto –
missão guerreira pela voz do campo.

O Mago da Guitarra – Joca Martins


23ª Ronda de São Pedro – São Borja – RS – 2005.*

O MAGO DA GUITARRA

Letra: Rodrigo Bauer
Música: Joca Martins
Intérprete: Joca Martins

Há uma guitarra encordoada de magia;
nela o encanto, para sempre, fez morada…
Tal fosse a lira que deu som à poesia,
nessa guitarra toca um mago a sua estrada!

Olhos que miram através de tudo e nada…
Mãos que conversam num dialeto de harmonia;
e, embora os tempos já as façam calejadas,
têm o poder de ser eternas, todavia!

Chega um zorzal num chamamé que se desgarra,
vem do outro lado feito um dia veio o mago;
quem tem destino guitarreiro de cigarra
não tem fronteiras pois o mundo é o grande pago!

Vai nesse mago toda a essência da alquimia;
transforma em ouro o som das cordas dedilhadas…
Nele os mistérios gregos da Mitologia
tal fosse Midas a dourar notas sagradas!

Surgem mazurcas que têm alma de urutago;
águias milongas afiando suas garras…
Todas as aves são cativas desse mago,
já que lhe habitam nos confins dessa guitarra!

Salve Don Lúcio, guitarreiro, mestre e mago!
O encantamento do teu Dom não tem amarras…
O sul é a senda iluminada aonde vago,
pois nessa estrada toca o mago da guitarra!

Nas Horas Ermas – Nilton Ferreira e Anizio Feliciani


11ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2000.

NAS HORAS ERMAS

Letra: Francisco Luzardo
Música: Nilton Ferreira
Intérprete: Nilton Ferreira e Anizio Feliciani

Sob o lusco-fusco da pampa em repouso,
A estância ainda dorme num catre de relva,
Que a mãe natureza estendeu na coxilha.
O oitão se espreguiça ao velho cinamomo,
Onde o João-de-barro ergueu a morada
Pra viver com a amada no pé da forquilha,

Nos bordões do vento similam tropéis,
Que vem a reponte de “êra cavalo”!
Já aquerenciado na goela do piá,
Que já tá de copla bem antes dos galos…
De peitito aberto, atrás da canhada,
Com a cavalhada pra mode encilhar.

Nestas horas hermas no galpão de estância,
A alma se abanca junto ao pai-de-fogo,
Pra matear saudades num fundão de campo.
E um rádio de pilha encurta distâncias
Num chamamesito que sai porta afora,
Chamando as canoras pra afinar o canto.

Com os olhos cravados no braseiro morno,
Bombeio a fumaça que dança em figuras,
Silhuetando imagem da china querida…
Que, distante, sabe que um peão diarista
Vive teatino com a alma em pedaços,
Alugando os braços pra ganhar a vida.

E o dia levanta com a cara de sono,
Vem tirar o freio do orvalho da quincha
E provar o apojo de um mate virado…
Uma cigarra canta, um guaxito berra,
Pra saudar a aurora e lembrar os campeiros
Que o sol de janeiro vem louco de brabo.

Só um resto de cerne fumega calado
No escombro de cinzas que, inconsciente, avisa
Que o fogo morreu, mas o resto está vivo.
É chegada a hora de alçar a perna,
Meu mouro encilhado lá fora me mira
E a cuia suspira num mate de estribo.

Me Perdeste Ou Te Perdi – Marcelo Oliveira


15ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2007.
Nesta edição da Sapecada, o cantor Marcelo Oliveira conquistou o troféu de Meçhor Intérprete.

ME PERDESTE OU TE PERDI?

Letra: Guilherme Collares
Música: Cristian Camargo
Intérprete: Marcelo Oliveira

Meu verso pergunta a si,
O que fizeste de mim
Que não mais me encontro em ti?
Eu que fui tua morada,
Tua sombra e tua aguada,
Pergunto sem pedir nada
– Me perdeste ou te perdi?

Teu rumo tinha querência,
Inquietude e dor de ausência
Que me levavam a ti…
E hoje que vives plantado,
Eu sou parte do passado,
Pergunto resignado
– Me perdeste ou te perdi?

Fui teu basto, tuas botas
E as curvas dessas cambotas,
Fui teu baio, tua cruz…
Fui o som de tua terra,
Tua lança, tua guerra,
Fui essa sombra que encerra
Teu espírito de luz.

Muitas vezes, fui a voz
Que escoou-se pela foz
Do rio de tua ilusão…
Fui o teu verso campeiro,
Teu sentimento estradeiro,
Eu fui o aboio tropeiro
Que canta o teu coração.

E me pergunto descrente
– Que fizeste em tua mente
Que não mais te encontro em ti?
Eu, o teu verso campeiro,
Teu sentimento estradeiro,
O teu aboio tropeiro
– Me perdeste ou te perdi?

Fronteira – César Oliveira


32ª Califórnia da Canção Nativa – Uruguaiana – RS – 2003.*

FRONTEIRA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran
Recitado: Rogério Villagran
Intérprete: César Oliveira

Fronteira de um pago a outro
Templada pelos rumores
Dos flecos dos tiradores
E correria de potros
Fronteira chão de “nossoutros”
Que hablamos de muundo e gente
NUma escramuça insistente
De redomões e “viguelas”
Firmando “sueños y espuelas”
No garrão do continente

Fornteira é sempre fronteira
Onde a imensidão que se alonga
No repicar das milongas
E assovios de boleadeiras
Fronteira é sempre fronteira
Viva o canto de um galo
Que sempre traz o regalo
De florear num garganteio
A inquietude dos anseios
De quem vive de a cavalo

Das barrancas do Uruguai
Aos obeliscos da linha
Uma irmandade caminha
E tempo adentro se vai
Porque a liberdade atrai
Os que peleiam por ela
E a fronteira é uma janela
Aberta sem venezianas
Que a outros pueblos se irmana
A pátria verde amarela.

Fronteira dos atropelos
Chimangos e maragatos
Abarbarado retrato
De um tempo que era sinuelo
Fronteira do mesmo pêlo
Da mesma marca e sinal
Meu velho torrão bagual
Templado anseios novos
Acolherando três povos
Gaúcho, pampa e oriental.

Fronteira é bem mais fronteira
Quando se arrasta um “veiaco”
E um fronteiro firma os tacos
No balanço da soiteira
Fronteira é bem mais fronteira
Porque o presente e o passado
Trazem um futuro ajoujado
Junto da machaça estampa
De um touro que afia a guampa
Nalgum cupim do banhado.