Vaneirão da Mal Costeada – Adriano Posai e Alexandre Ramos


5ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages SC – 2005.
Melhor Tema Campeiro dessa edição da Sapecada.

VANERÃO DA MAL COSTEADA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran
Intérprete: Adriano Posai e Alexandre da Silva

No chamarreio da “bandona” mal costeada,
Peço a bolada da mais “veiaca” do lote.
Se a mim me toca, que o resto se “leve a bréca”,
Depois que seca o primeiro suor do trote.

Quebro na testa meu sombreiro de aba larga,
Arrasto a carga bem pra o meio do salão,
Levo ‘os encontro’, ali, num grito de “solta”,
Buscando a volta deste baita vanerão!

Ali o Medeiros, que da farra é testemunho,
Afirma “os punho nas costela” do “bandoneo”…
E a mal costeada diz que um eito é muito pouco,
E que eu sou louco, e tenho parte com o demônio!

Levo na cincha esta madtreira que se joga,
Coiceando a soga que castiga na virilha…
Procuro ‘as unha’ e deixo, no más, que se torça,
Pois faço força é bem o meio da forquilha.

Eu sou crioulo do “Passo do Reculuta”
E lida bruta não me assusta neste embalo,
Já “relampiado e com o zóio” virado em brasa,
Se derem vaza, eu entro e danço de a cavalo!

Um Certo Galpão de Pedra – Raineri Spohr e André Teixeira


16ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2008.
Composição que conquistou os prêmios de Primeiro Lugar, Melhor Melodia e Melhor Arranjo.

UM CERTO GALPÃO DE PEDRA

Letra: Xirú Antunes
Música: André Teixeira
Intérpretes: Raineri Spohr e André Teixeira

Cantigas de ronda antiga
Que há tempos não via mais
Querência, galpão de pedra
Fogão dos meus ancestrais

Destapa um sonho cautivo
Chuvita mansa e dolente
Que as vezes se para quieta
Só pra escutar minha gente

Madrugada se boleando
No coração cantador
Outras almas vão costeando
As brasas do parador

Cantiga que ronda
Pela pedra, pela brasa
Pela terra que moldou
O perfil de cada alma

O galpão reafirma o tempo
Templado pelos avós
Voz de vento, voz de tempo
Eterno que somos nós

Por fora é noite “muy” negra
Por dentro baeta vermelha
Mal comparando é um poncho
Sem o salpico de estrelas

E segue cantando minha gente
Serenateando “no más”
Um dia serão as pedras
Que habitam este lugar.

Tapera – Marcelo Oliveira


32º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 2016.

TAPERA

Letra: Edilberto Teixeira (in memorian)
Música: Lucio Yanel
Intérprete: Marcelo Oliveira

Estás vendo lá no alto
Aquela ponta de gado?
E, mais perto do alambrado,
Que vai costeando a vertente,
Aquele rancho sem gente,
Sem janela esburacado?

… Que de silêncio ele tem!
Que de tristeza se acampa
Ao seu redor, que se estampa
A piedade num grito…
– Pois, coitado, está solito
Na imensidão deste pampa.

Está triste, tão sozinho,
Parece beijando o chão.
Tem, por sorte, a proteção
Daquela acácia galhuda
Que o resguarda e que o ajuda
A agüentar a solidão.

Quem passa por longe, pensa,
Vendo o rancho teatino,
Na amargura do destino
De quem vive abandonado
Pois, parece que ajoelhado,
Reza aos céus num desatino.

Parece que está chorando
Lá no altar do coxilhão
Na mais devota oração,
Entre lágrimas banhado
Pedindo, a Deus, que o passado
Volte outra vez para o rincão.

Não sei poque penso nisso
Toda vez que o sol vai indo
Lá no cerro se sumindo…
– Meu coração fica triste,
E essa tristeza que assiste
É a morte de um sonho lindo.

E eu digo mais, meu patrício,
Aquele rancho sombrio,
Igual a mim já sorriu…
Mas, com ele, eu choro agora,
Minha ilusão foi-se embora,
Deixou-me só e fugiu.

Meu coração não tem nada
E outro amor não mais espera,
Sem saudade, sem quimera,
Sem amor, sem alegria…
A minha alma está vazia,
O meu peito é uma tapera.

Santana, Querência e Saudade – Nelson Cardoso


2º Um Canto Para Martín Fierro – Santana do Livramento – RS – 2000.

SANTANA, QUERÊNCIA E SAUDADE

Letra: Nelson Cardoso
Música: Nelson Cardoso
Intérprete: Nelson Cardoso

Deixa eu cantar e ficar contigo;
Amar, de fato, sem ter preconceito;
Cantar saudade num verso campeiro;
Olhar teus olhos, bater peito a peito.

Querência amiga – das coxilhas longas
Entrecruzada pelos corredores;
Te sinto perto, mesmo estando longe,
Pois tu faz parte dos meus mil amores!

Mas que saudade de cantar a terra
– Velha Santana do meu céu azul;
Ao dar pousada pra o “cantar de Fierro”,
Valorizastes o extremo sul.

Abre-te o poncho pra abrigar cantores,
Tropeando versos, batendo cincerro!
E, a lo largo, te entregando a tropa…
Ecos de cantos pra teu Martín Fierro!

Quando a Esperança Faz Fiador – Nilton Ferreira e Nenito Sarturi


1º Canto Nativo de Porto Alegre – Porto Alegre – RS – 2004.
Composição premiada com o Primeiro Lugar e Melhor Instrumentista (Arthur Bonilla).

QUANDO A ESPERANÇA FAZ FIADOR

Letra: Leonardo Sarturi
Melodia: Leonardo Sarturi
Intérpretes: Nilton Ferreira e Nenito Sarturi

Quando o sol, no poente encarnado,
Já se enfurna pra banda oriental
Dando rédeas ao baio encerado
Também eu vou “mermando”, afinal.
Nesse instante de encanto e magia,
Em que a mente galopa pras timbas
É que a tropa das melancolias
Vem beber no cristal das cacimbas.

São duzentas cabeças de gado
Que tranqueiam pelo corredor,
Vou na “ponta” co’a fé no costado
E a esperança fazendo fiador.
São seis léguas do Itu à estância,
São seis homens afeitos à lida,
São seis almas vencendo distâncias
E as agruras nos bretes da vida!

Êra boi… Êra boi…
Da culatra se ouve o apelo,
Da vanguarda o mugir do sinuelo,
Os resmungos são do capataz!
Êra boi… Êra boi…
Logo após o repecho distante
A pousada é refúgio, lá adiante,
Que a saudade atropela de atrás!

Que será que o compadre Ponciano
Vem pensando no “coice” da tropa?
Imagino que o negro Laureano
Vem no flanco contando lorota.
Os peões vêm guapeando nos bastos
Mas o gado já sente o mormaço,
É melhor “largá os bicho” no pasto
E, na sanga, abrandar o cansaço.

É no tranco da lerda boiada
Que o tropeiro rumina seus planos
De largar desse “ofício da estrada”
E arranchar-se no “povo” pra o ano.
É no largo assobio do campeiro
Que as tristezas se perdem, ao léu,
É em sonhos que viaja o tropeiro,
Sob a aba do vasto chapéu.

O Baile do Pé-de-Cabra – Marcelo Oliveira e Rafael Prates


8º Canto Farroupilha – Alegrete – RS – 2016.

O BAILE DO PÉ-DE-CABRA

Letra: Diego Müller
Música: Filipe Calvete Corso
Intérprete: Marcelo Oliveira e Rafael Prates

Um ranchito de madeira,
Pequeno, qual a esperança…
– Mas tudo se dá de jeito
Se o motivo é a própria dança!…
Até o leitão foi pra faca
E as “galinha” pra panela…
Não para de chegá gente
Se eu bombeio pras “janela”!…
Por isso, Alflino, socorre!
…Que o povo já cruza afoito,
Se amontoando pela sala,
Mais do que trança de oito!!!

Baixa Alflino, e traz o pé-de-cabra antigo,
Que hoje tem baile na beira do Paquetá…
Tira as “parede” pra caber os “convidado”,
Que o xixo bruto vai até o dia clareá!

Vão vir gaiteiros do Caju e da Olaria,
Daqueles velhos, que conhecem bem um chote…
– Tocam vaneiras, como somente eles mesmos,
E um bugiu macho, de requebrar té o cogote!

E uma guitarra vem, alí do Mato Grande,
Pra dar o timbre, até que o baile se acaba…
– Tira as “parede”, Alflino, pra aumentá espaço,
Que esta farroma… só sendo com o pé-de-cabra!

Sem as “parede”, é que o povo todo se espicha,
E que as esporas riscam num “cho-rô-chô-chô”…
– Os “loco” tudo enrredado, “baxo” o candieiro…
Que a percantada neste breu já se assanhô!

E era um faz que vai – não vai – no mesmo arrasto,
Que só esta gente dita, ao costeio da dança…
Pode quem pode – e quem não pode se sacode…
…Que até um de colo sob a poeira se balança!

E já clareia o dia ao sapucai de um “gallo”…
Quem levou leva… E quem não levou, tá sem par!…
– Mas, Seu Alflino, não alça a forqueta ainda,
Que há de botá as “parede” tudo em seus “lugar”!!!

Na Consciência de um Borracho – Nilton Ferreira


Querência do Bugio – 13º Aparte – São Francisco de Assis – RS – 2008.

NA CONSCIÊNCIA DE UM BORRACHO

Letra: Valdir Disconzi
Música: Zulmar Benitez
Intérprete: Nilton Ferreira

“Num bolicho – beira estrada – desses que o tempo esqueceu
Um borracho me escolheu pra um desabafo consciente…
Se abancou na minha frente e num tom de confidência
Foi relatando experiência, abrindo a alma e a mente:”

— Sabe, amigo, sou do campo e não gosto de lamento,
Mas é que chega o momento que o próprio orgulho nos cobra.
Eu fui pau pra toda obra nessas granjas e fazendas
E sei que, ao final, a prenda, pra um peão, é tudo o que sobra.

Não reclamo de patrão, mas a sorte é desgranida!
Por bueno que fui na lida, não consegui o que busquei,
Pois tudo que planejei em comprar e dar à china,
Saiba que a plata malina não veio e eu não comprei.

Apesar da estampa rude, me falava manso e lento,
Remoía o pensamento, de vez em quando parava…
Parece que procurava encontrar o melhor jeito
Pra ir tirando do peito toda a dor que carregava.

— Ao longo de um corredor – onde hoje vivo embretado –
Planto ao correr do aramado só pra bóia das crianças.
Não tenho mais esperanças e passei a ter vergonha…
Pois de tudo o que ela sonha, não deixo nada de herança.

Não leve a mal, meu amigo, por nem ter me apresentado,
Pois vinha muito engasgado e falar foi a saída…
Mas só o poder da bebida faz um homem da campanha
Contar pra pessoa estranha esses tormentos da vida.

Lá Nas Palma – Henrique Abero


2º Canto Sem Fronteira – Bagé – RS – 2004.
Composição que conquistou o prêmio de Música Mais Popular.

LÁ NAS “PALMA”

Letra: Guilherme Collares
Música: Zulmar Benitez
Intérpretre: Henrique Abero
Declamação: Zulmar Benitez

“Versito da patacoada,
Que sai coiceando da alma
De alguém que veio “das Palma”,
Onde a zebuada se arisca…
… Unha-de-gato me risca.
E japecanga me corta!…
…E um baiozito encerado
Sai troteando- atravessado-
Virando a cara pra’os lados…
… Cheirando o bico da bota!”

Gente tigra e despachada,
Campeira e buena de laço!…
Lá nas palmas- companheiro-
O sistema que vigora
É mais ou menos assim:
Desde guri, nos criamos
Correndo zebu alçado
No meio dos alecrins.

O Camaquã tem mais voltas
Que burro de três galope!…
O mango responde os golpe
Das eguada chimarrona!…
E alguma rês – fraquerona!…
Mete as duas mãos na armada
Quando o agosto vem mangueando
Pro setembro que peala!

Nessa fronteira crioula
Por todo lado onde ando,
Eu sei bem- e não esqueço!-
O rincão lá de onde vim!…
E esta modesta coplita,
Não diz – a missa a metade-
Do que- as Palma!- representa
E grita, dentro de mim!

Na pedreira- algum bochincho…
…Muito indio sai riscado!
E na coxilha das flores,
Bastante baile afamado!
Na pedra Grande e velhaco,
Serra, cruzeira e banhado!…
…Nas palmas- como um todo-
é mato e campo dobrado!

E nas carreiras da toca,
Bordoneio co´o tio Doro
Uma vaneira matreira,
Num pinho- corda de aço-
Amadrinhado- ao costado-
De um pandeirito chistoso;
E um estouro- n’algum lombo,
Dum facão- n’algum planchaço!…

João Corda Feia – Sandro Rockembach


20ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2012.

JOÃO CORDA FEIA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran e Sandro Rockembach
Intérprete: Sandro Rockembach

Por gosto, ‘João Corda Feia’,
Se desdobra bem assim…
Arremata e diz: tá pronto,
Garanto que não tem fim!
Com uma chairada na faca,
Dá jeito n’outro pedido,
Se no trançar não arrebenta,
Depois de pronto, eu duvido.

Não faz corda pra bonito,
Faz pra doma e arrocino,
Deixa, no mais, o requinte
Pra algum guasqueiro granfino.
Amansa um pouco a macete
E o resto o serviço sova,
E o que com o tempo se gasta,
Sebo de ‘oveia’ renova.

Melhor sobrar do que falte,
Mede um palmo e tá bem feito,
Pois o rigor pouco a pouco
Lhe aconselhou deste jeito.
Couro magro é bem mais forte,
A qualquer tirão aguenta,
Couro gordo dá sovado,
Mas facilita, arrebenta.

‘João Corda Feia’ é guasqueiro,
Ter outra função não pode,
Dá uma ‘guspida’ e golpeia,
E o tento que se acomode.
Diz que o ‘botão de laçada’
É o mais seguro que tem
E basta um ‘corredor de cinco’
Desde que lhe apertem bem.

Aprendeu na obrigação
A corda que requer lida,
Pra que serve e qual feitio,
Trançada, chata ou torcida.
E pelo o que facilita,
Se rebusca e ganha a vida,
Refrescando o que acomoda
Numa estopa umedecida.

Algo assim tem seu valor,
Pelo que tanto conheço,
Embora custe o que cobre,
São garras que não tem preço.
Mesmo um tento pra ‘atá’ o laço
Acredito que seja assim:
Feitio do ‘João Corda Feia’,
Garanto que não tem fim.

Indagação – Cristiano Quevedo


9º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula – RS – 1995.

INDAGAÇÃO

Letra: José Carlos Batista de Deus
Música: Frutuoso Luiz de Araújo
Intérprete: Cristiano Quevedo

Nasci num fundo de campo (te falo de grota),
Tive um galpão por meu lar.
Em vez de aprender a ler,
Aprendi a ginetear (ofício que trago)!

Entre os bastos e barrancos
Me fiz homem muito cedo
E sempre gastei meus cobres
Nas noites do chinaredo!

Quem vive essa lida osca
Entre alambrados e esquila,
Carrega dois corações
Que são a estância e a vila!

Se me arranchei nos arreios (meu trono gaúcho),
Foi pra sustentar meu vício:
Canha pura e fumo bueno
E ‘as moça’ do Meretrício (quaje todos os dias)!

Quando rumeio pra o povo,
O mulheriu nunca falha,
Peço que Deus não me ajude,
Pois se ajudar me atrapalha!

Que lindo fazer querência (minha pátria campeira)
Na vastidão do meu pala,
Tirando todas as “cósca”
D’uma crinuda baguala (florão do meu pago)!

Por isso é que pergunto
Para os tentos do meu catre:
Quem sabe troco os pelegos
Pelo calor de um alcatre?!