Guarany – Loma e Xirú Antunes


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.

GUARANY

Letra: Xirú Antunes
Melodia: Fábio Peralta
Intérpretes: Loma e Xirú Antunes

Guarany, palavra de aço,
que fere o compasso,
de quem é ateu,
que o Deus destes índios,
habita os banhados,
o rincão dos pastos,
a prece dos matos,
a terra e o céu.

Guarany, palavra morena,
de rondas profundas,
silêncio e fumaça,
verdade e cantiga,
herança e ruína,
propondo balaios,
e santos quebrados,
na voz repetida.

Guarany, das veias profundas,
artérias da terra,
o sangue primeiro,
depois missioneiro,
missões de além-mar,
vieram assim,
sem medo aparente,
pra amordaçar.

Quais foram as bençãos,
das quatro vertentes,
da cruz de lorena,
em nome de Deus,
quem tira os filhos,
da mãe natureza,
constrói incertezas
na pele dos meus.

E andam as ruínas,
nos passos calados,
costeando as estradas,
aos olhos de Deus,
profanado e genuíno,
semblante moreno,
desafiando a crendice,
dos mesmos ateus.

Guarany, guarany,
é terra que anda,
abençoado de mato,
e de pajonais,
que o Deus destes índios,
habita os banhados,
o rincão dos pastos,
a terra e o céu.

Primeiro Canto – A Tocaia – Trio Rédea Solta e Rafael Machado


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.

PRIMEIRO CANTO – A TOCAIA

Letra: Rafael Machado
Melodia: Rafael Puerta e Arthur Boscato
Intérpretes: Trio Rédea Solta e Rafael Machado

Tocaiarô Chico Sôsa
onte a noite – madrugada –
depois da venda fechada
cadeado, tranca… Essas côsa!
Veio sem família – esposa –
faria um ano em seguida
e montô casa sortida
a tecido, canha e sal
junto da estrada real
recém mesmo construída.

Adquiriu, sem demora,
pela forma como agia
confiança e simpatia
de todo mundo aqui fora!
De início não tinha hora,
nem dia sempre disposto.
De’atrás do balcão – seu posto –
atendia e despachava…
Rôco estranho na palavra,
sorriso amigo no rosto!

Depois, sem pedir segredo,
veio o tempo… Foi correndo
e ele se recolhendo
cada vez mais e mais cedo;
parecia andar com medo,
sonhando com sepultura!
Fato é que d’uma altura
pra frente nem por decreto
tirava o quarenta e quatro
marca taurus da cintura!

Sobra de azar, poca sorte,
coincidência, essas cosa…
para mim que o Chico Sôsa
sentia o cheiro da morte;
não sei se no vento forte,
não sei se na chuva mansa…
Sei que meia vizinhança,
quando sôbe do entrevero,
só pôde sentir o cheiro
amargo e vil de vingança.

Reparem as pratelera!
Diziam: – Ninguém é bobo,
o que hôve não foi rôbo…
Ó a caxa registradera!
Quem nasce nessa frontera
entende que o Uruguai
é chamarisco que atrai
toda espéce de sujeito;
depois do serviço feito
peito n’água e nunca mais.

Gente’escrava de bebida,
gente que joga baralho,
gente capaz de trabalhos
que a gente mesmo duvida
e que por conta da vida,
suas voltas, seus absurdos,
com tanto lugar no mundo
pra se viver, pra se’estar
acabam por se cruzar,
justamente, nesses fundo!

Assim que deu Mario Osório
encilhô rumo à cidade
relatar à autoridade
sobre caso tão notório.
Que fossem ao São Gregório,
mas que fossem em seguida!
É numa casa sortida
a tecido, canha e sal
junto da estrada real
não faz muito construída.

De’atrás do balcão – seu posto –
pras lides do dia inteiro,
tá o corpo do bolicheiro
descansando, contragosto.
Talho graúdo no rosto,
no peito é a mesma côsa.
Há de surgir muita prosa,
mas de certo, quaje nada…
Só que na noite passada
tocaiarô Chico Sôsa.

Milonga de Cruzar o Ano – Quarteto Coração de Potro


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.

MILONGA DE CRUZAR O ANO

Letra: Francisco Brasil
Melodia: Kiko Goulart
Intérpretes: Quarteto Coração de Potro

Cruza o verão – mormaceira –
com laço e mata-bicheira.
Que lua nas tardes largas! –
Metendo aos pouco em rodeio
os que vem novo de freio
mas já bem manso co’as garra.

O outono regula o ano.
Se cai a geada temprano,
o campo sente, pois bem:
Perde estado a cavalhada,
se defende a terneirada
no trevo e no azevém.

Antes do meio do ano,
a balança sem engano
da valor à produção.
Terneiro cruza e pesado,
parelho e bem enlotado,
rende plata. Como não!

Repasse, esquila, alambrado,
descole e banho de gado,
fazer cavalo no campo…
A indiada pega parelho
E só quem chora é o arreio –
sem domingo ou dia santo.

Com o inverno chegando
maio pra junho virando –
parição das ‘Corredal’.
Pelo campo, as recorridas…
Cuidando as rês mais sentida
na volta do banhadal.

Setembro e a primavera…
e o serviço não espera
despejando a terneirada.
Olho vivo com novilha
que vai dar primeira cria,
pra ajudar as trancadas.

Se Foram Pra Outro Pago – Marcelo Oliveira


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.

SE FORAM PRA OUTRO PAGO

Letra: Gujo Teixeira e Evair Gomez
Melodia: Juliano Gomes
Intérprete: Marcelo Oliveira

Se foram pra outro pago
Levando um pouco de tudo
Um silêncio quase mudo
E uma alegria engasgada.
Pilcha, arreio, uma prateada
Uma tambeira, e os bragados
O cusco foi no costado
Mosqueando a franja do pala…
E uma esperança na mala
Dividida nos dois lados…

Os bragados formam mansos
Mapamundi, Genuíno
Tenente, Onça e Teatino
Cavalos de vida inteira.
Quando cruzaram a porteira
Tentou voltar o Tenente
Mas o cusco fez a frente
E encordoaram com a vaca
Que o destino às vez ataca
Rio com fama de corrente…

Se foram pra outro pago
Todos juntos, forasteiros
Os bragados, de primeiro
Batendo um trote parelho
E a soitera do relho
Que balenceava en despunto
Era o vento e “seus assunto”
Com o pala em rebeldia
Enquanto a estrada engolia
O que nasceu pra andar junto.

Mira o longe, quadra o corpo
Sobre o basto se balança
Vai um lote de lembrança
Pra povoar outro lugar…
O que custou pra tranquear
Puxa de tiro a consciência
E a mansarrona experiência
Que amanunciou ao partir
É mais que sina de ir…
-Fundamental pra existência-

Se foram pra outro pago
Como se fossem embora
Na verdade hace hora
Que já se haviam partido.
Tudo que teve um sentido
Já andava escrito nos pastos.
Não se tem caminhos gastos
Quando se quer vida nova
Se bandeia, se renova
Porque o que é chão, deixa rasto!

Cercadito – Fabiano Bacchieri e Xirú Antunes


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.
Prêmio de Melhor Instrumentista para o Everson Maré.

CERCADITO

Letra: Xirú Antunes e Sérgio Carvalho Pereira
Melodia: Fabiano Bacchieri
Intérpretes: Fabiano Bacchieri e Xirú Antunes

Cercadito, arame “froxo”,
que o boi manso “afroxou”,
boi fumaça “ muy” rocero,
se escorou no arame bom.

Tu me agrada cercadito,
quando vejo a chinoquinha,
a trança negra abanando,
e um balaio na cintura.

Colhendo a fruta madura,
milho verde, mandioquinha,
munhata, milho catete,
e uma florzita escondida.

Ao voltar das recorridas,
quando o sol vai se esconder,
Sinto aroma de melão,
Madurando de romper.

E uma perdiz alça o voo,
assustando meu oveiro,
e a lebrezita se escapa,
da festa dos ovelheiros.

Do meu cercado da infância,
marcas de tatu peludo,
coração de melancia,
adocicando meu mundo.

era o ligeiro o petiço,
na crina eu levei a mão,
e quebrou junto da cerca,
o mais cheiroso melão.

Não pisa sobre os baraço,
já me espanta as caturrita,
e traz na frente, nos braços,
a moranga mais bonita.

Hoje parece que eu tenho,
Teu arame em meu olhar,
Tento cercar as lembranças,
Do que foi o meu lugar.

Tu cercadito, teus frutos,
Me garantiram a existência,
E o teu fio de arame bruto,
Marcou em mim a querência.

Oitava Rima – Leonel Gomez


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019.

OITAVA RIMA

Letra: Rogério Ávila
Melodia: Leonel Gomez
Intérprete: Leonel Gomez

Tem alma de campo vasto
Torrão de pasto e vertente
Seiva, sangue desta gente,
Que vive a saga da crina
O sol pampeano que ilumina
Queima e requeima em retovo
E trago a tez do meu povo
No bronze da oitava rima!

Na voz do canto que entoa
Qual um sussurro de china
Quando a noite se termina
E uma tropilha entablada
Vai campaneando na estrada
O timbre da oitava rima!

E no clarear de um campestre
Doce flor que se derrama
Mamangava e lechiguana
Camoati e ainda por cima
Mel do beijo de uma prima
Palomita de quimera
Que linda na primavera
É o aroma da oitava rima

No rincão domingo largo
Mate amargo, assado e vinho,
Na distância do caminho
A donde velha doutrina
Que se resume na esgrima
Pra resolver desacato,
Destreza empresta um mulato
Ao tato da oitava rima!

É na Frontera, meu pago,
Que meu cantar é nutrido
E encontra os cinco sentidos
Quando a guitarra se afina
E numa milonga lastima
Mourisca ibérica essência
Trazendo pampa e querência
Pra o sabor da oitava rima.

Tordilha Canha Branca – César Oliveira e Rogério Melo


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019

TORDILHA CANHA BRANCA

Letra: Leandro Godinho e Rafael Ferreira
Melodia: Zé Renato Daudt
Intérpretes: César Oliveira e Rogério Melo

Me pateou firme no peito, nessa primeira pegada,
Num bolicho beira estrada, nega estribo e mal se ajeita,
Mas depois já vem sujeita, pro vício, mágoa ou festejo
E nunca me nega o beijo, bem ou mal se endireita.

Por veiaca e mal costeada, troca de rumo das casas,
Balconera ganha as asas, corcoveando em gana loca,
Esta tordilha pitoca, em cada vez que lhe puxo,
Me invade o peito, gaúcho, depois de golpear minha boca.

Tordilha…
Tordilha égua maleva que me desbanca,
Veste o feitiço em corpo de canha branca,
Entrego os pila minguado pra te encilhar –
Tordilha…
Pelos bolicho faz campo e mostra a cena,
E a cada gole golpeio as minhas penas,
Frente aos volteios que a vida me dá.

Aperto no osso do peito, como se fosse um munício,
Pois cada um tem seu vício e o meu comparo com a doma,
Enquanto trinam choronas dos passos que cambaleio,
Me sinto mal nos arreio, tendo a tordilha por dona.

Te deixo junto ao balcão – e saco as garra por gosto,
Esfregando “as mão” no rosto, dou – gracias – ao bolicheiro,
A tordilha acha potreiro, nas prateleiras da copa,
Pra ver se alguém se topa degustá-la nos arreio.

Retrato Crioulo – César Oliveira e Rogério Melo


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019

RETRATO CRIOULO

Letra: Anomar Danúbio Vieira
Melodia: Rogério Melo
Intérpretes: César Oliveira e Rogério Melo

No contraponto do tento e dum par de “ferro” calçado
Um corcovo chacoalhado estremecia o terreno,
Pegava o rumo do céu e de lá se remontava
E ali “nomás” se topava com a perícia do moreno.

Pala encarnado e um sorriso na fachada
E a pataquada sustentando a tradição,
Vinha berrando aquele “lazão tostado”
Vinha meio debochado, bem sentado, o negro “Dão”.

Fazia tempo que não se dava uma “tora”
“Criolla” do campo a fora, com força de terra bruta,
Pelego grande, cincha forte, rédea larga.
E um sombreiro, “palmo de aba”, que já fez casa na nuca.

Foi quando alguém ergueu a voz de vereda
Esfrega o pala de seda na cara desse encruado –
E só podia ginetear desta maneira,
Se era índio da fronteira e cria do “Zé Machado”!

Era um retrato… desses de se botá em quadro
Um ginete, um aporreado e um resto lindo de dia,
O sol deitando no espinhaço do horizonte
E um vento manso em reponte embalando as sesmarias.

Era valente aquele “lazão tostado”
E não froxava o bailado, por mais que viesse apanhando,
E o negro “Dão”… naquele entono de galo,
Que além de andar a cavalo… tinha o pai amadrinhando..!

Tiro, Grito e Bolo Frito – Julio Amaral


19ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2019.
Composição premiada como Música Mais Popular na Fase Local e Melhor Tema Sobre a Região Serrana na Fase Geral.

TIRO, GRITO E BOLO FRITO

Letra: Isadora Martini e Sandoval Machado
Melodia: Sandoval Machado
Intérprete: Júlio Amaral

QUANDO VEM ROMPENDO A AURORA
E A PEONADA SE APRUMANDO
UM CAFÉSITO CAMPEIRO
NA CANECA VEM BUFANDO
O MATE FAZ UM COSTADO
PRA BOIA QUE VEM CHEGANDO
TODO MUNDO SE ALVOROTA
E NA GAMELA VÃO RONDANDO
O COZINHEIRO DA TROPA
VAI PREPARANDO A IGUARIA
TIRO GRITO E BOLO FIRTO
PRA COMEÇAR BEM O DIA

TIRO GRITO E BOLO FIRTO
PRA COMEÇAR BEM O DIA
ATÉ A CUSCADA NA VOLTA
VEM TENTIAR ESSA IGUARIA
TIRO GRITO E BOLO FRITO
PRA SUSTANCIA DA INDIADA
TIRO GRITO E BOLO FRITO
E VAMO BOTA OS BOIS NA ESTRADA

VOU PREPARANDO OS ARREIOS
SENTINDO A BÓIA ESTRADEIRA
BOLAS DE MASSA BATIDA
CORCOVEANDO NA FRIGIDEIRA
DE COMER BOLINHO FRITO
FICO “COS BEIÇO” LUSTRADO
E A CANECA DE CAFÉ
EU SECO JÁ ESTRIVADO
AGORA É TAPEAR O SOMBREIRO
E DEIXAR A POEIRA LEVANTAR
TIRO GRITO E BOLO FRITO
E VOU TROPEANDO SEM PARAR

TIRO GRITO E BOLO FRITO
E VOU TROPEANDO SEM PARAR
OIGATE BÓIA CAMPEIRA
DA SUSTANCIA PRA ANDEJAR
TIRO GRITO E BOLO FRITO
PRO SUSTENTO DA INDIADA
TIRO GRITO E BOLO FRITO
E VAMO BOTA O PÉ NA ESTRADA

Penacho – Fabiano Bacchieri


27ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2019
Composição premiada pelo Tema Mais Campeiro.

PENACHO

Letra: Felipe Bacchieri
Melodia: Fabiano Bacchieri
Intérprete: Fabiano Bacchieri

Simples negalho de clina
Ladeado, visto de cima
Que anuncia o redomão…
Mostrasse para o rincão
Em quanto tu ia voando
Que essa tava se costeando
No bocal e na minha mão

Pela regra da maneia
Cinco dedo atrás “oreia”
Te preservei da tesoura…
E essa minha potra moura
Já te exibiu, amostrada
Junto da boca babada
E do simples nó de vassoura

Confesso que a galopito
Tu ficava mais bonito
E eu ainda mais encantado…
Por que é esse teu bailado
Que me acompanha na lida
E dá sentido pra vida
A cada potro costeado

Eu nem me paro sentido
Pois passa o tempo estendido
E me despeço faceiro…
Do meu fiel companheiro
De tantos pingos domados
Queda o sorriso estampado
E um até logo parceiro

Canta o corte caprichoso
Em mais um “tec” no toso
Num tombo, sem barbicacho…
Nesse momento me acho,
Meu coração bate forte
E eu agradeço a sorte
De sacar mais um penacho