Benzido – Quarteto Coração de Potro


16º Acampamento da Canção Nativa – Campo Bom – RS – 2017.

BENZIDO

Letra: Francisco Brasil
Melodia: Kiko Goulart
Intérprete: Quarteto Coração de Potro

No meu tostado ruano,
costa abaixo rumo a um plano,
correndo com o laço armado:
Rodamos. E o boi se foi…
E o que restou-me depois:
Sarar deste pé quebrado.

Eu te confesso, chinita,
que em muitas manhãs bonitas
eu estive amargurado.
Quando ouvia do ranchito
latidos, touros e gritos
de algum rodeio parado.

Logo que o galo cantava,
eu, por costume, saltava
co’as mágoas daquele azar…
Sem poder calçar as botas!
E o boi brasino nas grotas…
Porque eu não pude atacar!

Foram dias no ranchinho
com as tuas mãos de carinho
e as orações que aprendeu.
Que este paisano, sarando,
cruzou suas tardes mateando
e até da dor esqueceu.

Quando a cuia me alcançava,
certas coisas te contava
dos tempos de’antes de nós.
Com silêncios e ternuras,
renovaste as tuas juras
naquelas noites a sós.

As nossas horas de sesta…
ou as estrelas nas frestas…
outeus olhos: vagalumes.
Foram pra mim, na verdade,
tocar na felicidade,
sentindo a pele e o perfume.

Com uma saudade infinita,
foi que retornei, chinita,
para lidar no rincão.
De qualquer dor esquecido,
como de amores benzido
com as rezas do coração.

A Memória da Pedra – Marco Aurélio Vasconcellos, Marcelo Oliveira, Luiz Marenco e Joca Martins


19ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2011.
Composição que conquistou os prêmios de Segundo Lugar e Melhor Letra (Gujo Teixeira).

A MEMÓRIA DA PEDRA

Letra: Gujo Teixeira
Musica: Cristian Camargo
Intérpretes: Marco Aurélio Vasconcellos, Marcelo Oliveira, Luiz Marenco e Joca Martins

Era pedra e seguiu pedra!
Por eterna a vida inteira,
Que um dia ficou no campo,
Cansou de ser boleadeira.

A pedra da boleadeira
Nesta terra se perdeu,
Mas dos meus olhos de campo
Um dia assim, renasceu…

Brotou do ventre da terra
Com paciência secular,
Esperando pra ser vento
E assim, de novo voar.

Não voou por muitos anos,
Perdida das outras duas,
Mas sempre guardou a forma
Redonda, em feitio de lua…

Foi surgir desenterrada
Do mesmo jeito que veio,
Junto de um cocho de sal
Num parador de rodeio.

Pela lembrança da pedra,
Muitos séculos de história
Que guardou fundos de campo
No rastro de sua memória…

Por fora, suja de terra,
Mas com mistérios por dentro,
Mostrando o vinco do couro
Bem recortado em seu centro.

Trezentos anos, talvez,
Renascida sobre a terra.
Mansa, serena qual pedra,
Quem já foi arma de guerra.

No alto de um coxilhão,
Bem onde foi esquecida…
Ganhou palavra de terra,
Pois meu olhar lhe deu vida.

Das mãos de um índio charrua
Pra minhas mãos de campeiro,
A pedra da boleadeira
Tem sempre rumo certeiro!

Todo Galpão é Querência – Rogério Melo


13ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2005.
Composição premiada com o Segundo Lugar, Melhor Arranjo e Mehor Intérprete (Rogério Melo).

TODO GALPÃO É QUERÊNCIA

Letra: Gujo Teixeira
Música: Cristian Camargo
Intérprete: Rogério Melo

Todo galpão é querência…
aos olhos da madrugada,
porta de rumo pro norte
cuidando o tempo e a estrada,
pra quando um sonho distante
chegar pedindo pousada.

Todo galpão é querência…
quando o dia desencilha
e se acende um sol vermelho
num cerne de corunilha
e um mate mistura o gosto
de cacimba e maçanilha.

Todo galpão é querência…
toda querência é galpão…
porque há nas duas palavras
mesmo sentido e razão
de serem o mesmo lugar
e, em resumo, um coração.

Todo galpão é querência…
poncho baeta vermelha
pra quando um resto de tarde
virar garoa parelha
e descer do céu pra noite
contra o quinchado de telhas.

Todo galpão é querência…
se um baio pasta por perto
e a cachorrada ressona,
mas cuida o longe de perto
e um galo ainda acorda o dia
de peito e de bico aberto.

Senhora dos Pescadores – Adriana Sperandir e Renato Júnior


3ª Salina da Canção – Balneário Pinhal – RS – 2016.
Composição premiada pelo Melhor Arranjo.

SENHORA DOS PESCADORES

Letra: Valéria Pisauro
Música: Adriano Sperandir
Intérpretes: Adriana Sperandir e Renato Júnior

Te sonhei sereia, festa em lua cheia,
Rainha de oceanos inteiros,
Vazante canto, tamboreiro
Herança viva de Açores,
Une as terras mais distantes…
Estrela do mar que encandeia,
Os remadores de sonhos.

Oh, minha Senhora,
Luz que ilumina,
Navega sem descansar.
Carrega oferendas
Para o fundo das águas
A encantar, a encantar….

Senhora dos pescadores, estrela do mar,
Espelho de prata que enlaça,
Graça acolhida pela carícia,
Recolhe as velas dos temporais.
Aconchego de conchas e vidas
Guia as águas e o vento sul
Com o azul de teu vestido.

Relato da Velha Tapera – Nilton Ferreira e Jean Kirchoff


16ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2008.
Composição que conquistou o prêmio de Melhor Conjunto Vocal.

RELATO DA VELHA TAPERA

Letra: Leonir Bortolas e Túlio Souza
Música: Piero Ereno
Intérpretes: Nilton Ferreira e Jean Kirchoff

Sou o que resta da velha estância,
Guardando o posto de muitas memórias,
Mas com pesar lembro o dia em que um baio
Topou com um touro e tornou-se estória…

Foi bem assim:

Cavalo bueno, criado na estância,
Tinha o respeito dos peões e do gado;
Touro maleva, brasino e orelhano,
Não respeitava nenhum alambrado!

Naquele dia o embate de campo
Mostrou que a vida é mais do que sorte;
Provou que o bicho é mais que instinto,
Juntando o touro, o cavalo e a morte.

O touro…
Bufando as ventas, respirava fúria,
Ódio vestido de couro brasino,
Que num trompaço quebrou a cancela,
Prestou serviço pra o rude destino.

O baio…
Nunca deu vez a animal desgarrado,
Mesmo sentindo o perigo a fio!
Então, sem medo, num salto ligeiro,
Tomou a frente do touro arredio!

A morte…
Veio na raiva dos olhos do touro
E se entranhou pelas aspas afiadas
Que, sem piedade, cravaram no couro,
Deixando a terra de rubro encharcada!

Enquanto o baio rinchava de dor,
Sangue valente escorria no pêlo…
Partiu com honra, tem alma este bicho,
No céu dos pingos foi ser o sinuelo.

Naquele dia, guardei mais que a imagem
De um cavalo nas aspas da fera…
Tem mais valor quem enfrenta o destino
– Esse é o relato da velha tapera! –

A vida é assim…