Regalo Pra Um Domador – Jairo Lambari Fernandes


14ª Reculuta da Canção Crioula – Guaíba – RS – 1997.*

REGALO PRA UM DOMADOR

Letra: José Carlos Batista de Deus e Jairo Lambari Fernandes
Música: Jairo Lambari Fernandes
Intérprete: Jairo Lambari Fernandes

Quando me encontro a cavalo,
Num mouro cabeça preta,
Se faz linda a silhueta
Que se estampa no horizonte;
E no recau do monarca
Vou assobiando uma marca
Que eu mesmo fiz, tresontonte.

Eu trago a pátria nas veias
E o mundo embaixo dos bastos;
Herdei dos caminhos gastos
O pó que branqueia as crinas.
Guardo um “recuerdo” emalado
Daquele amor negaciado
Na sombra das lamparinas.

Por quincha: o céu e as estrelas;
Por rancho: o poncho e o chapéu;
E uma saudade “a lo léu”
Vai se cambeando por outra…
No versejar dos arreios,
Largo a tropilha de anseios
No lombo da vida potra!

Já embuçalei tanto xucro
Só pra ensinar meu idioma…
E batizaram por doma
Esse ritual da querência!
Mescla de arte e de lida,
Onde nunca se olvida
Bocal sovado e paciência.

Depois dos fletes que fiz:
Baios, tordilhos, gateados,
Pretos, rosilhos, tostados…
Lombos levando as estâncias
Só me sobrou, por regalo,
Poncho, chapéu e cavalo,
Para engolir as distâncias.

Queixo Duro – Ricardo Martins


2º Minuano da Canção Nativa – Santa Maria – RS – 2003.

QUEIXO DURO

Letra: Antonio Augusto Ferreira
Música: Zé Pedro da Rosa Lima
Intérprete: Ricardo Martins

Meu destino eu mesmo faço
Não vou seguir a cabresto
Que o rumo do meu cavalo
Prefiro escolher eu mesmo
Sou mais livre se meu passo
Caminha ao sabor do vento
Minha alma é campo raso
Sem arames pelo meio

Não me indiques o que é certo
E o que é tido por direito
Que eu tenho os olhos abertos
Para o meu próprio conceito
Não preciso de vaqueanos
Nos caminhos que conheço
Se eu errar, a cada engano
A vida cobra seu preço

Não creias que sou criança
Pelos caprichos que eu tenho
Pelo muito de esperança
Que vive nos meus adentros
Eu quero ser o que sou
Sofrer ao próprio pelego
Quem caiu e levantou
Encontra a força em si mesmo.

Cada qual tem seu destino
E há de sofrê-lo ao seu jeito
Eu buscarei meu caminho
Com toda força que tenho
Preciso seguir sozinho
Com meus versos, meu silêncio
E as ilusões de menino
Para vencer os meus medos

Por isso dispenso ajuda
Guardo apenas o conselho
Aqui meu rumo se muda
Não vou seguir a cabresto
Me vou cantando pra rua
No rastro de um sonho imenso
A alma-pura ternura
E o coração caborteiro

Eh, queixo duro!
Bagual da venta rasgada
Mesmo que pareça errado
Faço minha própria estrada

Pechas – Marcos Costa


20ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 2000.

PECHAS

Letra: Rossano Viero Cavalari
Música: Sinval Araujo e Pedro Carvalho Júnior
Intérprete: Marcos Costa

A face da guerra é a Lua do homem,
Vidas que somem num vil desatino,
Negro destino da noite da alma
Que bebe e acalma a fúria do tino.

Se a mão degolou a ilusão da piedade
É por que na verdade até os homens de bem,
Sabem como ninguém que a valia de um ato
Pode um dia de fato, selar o rumo de alguém.

Será que Latorre da faca prateada,
Que veio do nada não fosse o Rio Negro?
Teria o degredo da pecha que leva
De ser uma leva, ao fazer um arreglo.

O peso de um nome cismado de mito
Carrega solito o sestro que afina,
Poemas e rimas no flete do tempo,
Preso nos tentos, refém de uma sina.

A face de um homem tem verso e reverso
Que o verbo disperso aparta “a ló leu”
Só os olhos do céu é que sabem o lado
Que foi rotulado por debaixo do véu.

Namoro de Campanha – Nelton Brasil e Os Posteiros


10ª Seara da Canção Gaúcha – Carazinho – RS – 1990.

NAMORO DE CAMPANHA

Letra: Jaime Brum Carlos
Música: Doly Carlos Costa
Intérpretes: Nelton Brasil e Os Posteiros

Sempre que a noite encerra o sábado, no poente
E o sol se esconde por de trás do “calipial”,
A saracura embala o sono dos banhados
E as caturritas silenciam o ilhará;
Meu baio ruano vai gastando os comilhos
No “ruc-ruc” que faz eco no embornal!

Eu me preparo como pra tirar retrato
De pilcha nova e lambusado de “Grostora”
Encilho o baio depois de alisar o pêlo
E, ao trote largo, folheirito estrada afora!
Vou assoviando uma coplita missioneira,
Em contracanto ao tinido das esporas!

Ouço, de longe, uma “bandona” castelhana
Repinicando num “tanguito” afolherado!
Ao despacito eu me chego pra o surungo
Porque o destino me ensinou ser desconfiado…
Entro na sala e corro o olhar nos quatro cantos
– O prevenido tem a sorte do seu lado!

Tiro uma prenda que me olhava de soslaio
E vou tenteando um namoro, de mansinho;
Mastigo todo um dicionário de ternuras,
No ouvido dela vou largando picadinho…
A imaginar a silhueta que se esconde
Sob as anáguas e por baixo do corpinho!

É um idílio de ilusões que se entreveram,
Porque o namoro na campanha é diferente!
É mão na mão e, assim mesmo, “des’em quando”
Até as roupas nos ensinam ser decentes…
É tanta saia, bombachinha e “diabo a quatro”
Que é um caro custo um changui para o vivente!

No fim do baile o baio ruano já me espera,
Com a luz da aurora sarandeando na quilina!
E dou “té a volta pra chinoca” e alço a perna
E afogo as mágoas num gole de cangibrina!…
O horizonte já me chama pra outrs plagas,
Por ser teatino, a liberdade me fascina!

Lugarejo – Juliana Spanevello


36ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 2016.

LUGAREJO

Letra: Leonardo Borges
Música: Fabrício Ocaña
Intérprete: Juliana Spanevello

Luagrejo é o meu rincão:
–Caminhos de areia fina…
Água boa, Sina-Sina,
Caraguatá e Corticeiras!

Lugarejo, sanga mansa
Enfeitado a pitangueiras
Donde o boieiro faz ninho
Com restoios de clineras…

Lugarejo, pampa antiga
Piqueteado por ausências,
–Teus aromas de querência
Povoam minhas lembranças

Teus campos de pasto fraco
Há muito sobram na herança,
Verdejando nos meus sonhos
Pendoado de esperanças

Luagrejo é o meu rincão:
Onde chora a dor do eixo
Da carreta, sem desleixo,
Na resistência dos bois…

Num tranco de camperear
Tu e eu, não somos dois…
O tempo, para no tempo
Pra não pensar no depois!

Lugarejo, pago adentro:
Santa fé e banhadal…
Entre o viço do xircal
Escorre a seiva da terra

Tua história de trabalho
Não teve manchas de guerra,
A lo más, cerro e canhada
Adonde o tereiro berra…

Lugarejo: –Vaca arisca!
E do potrilho mestiço,
Algum guri num petiço
E velhos de mil passagens

Não fosse o sangue nas veias
Que me puxa às tuas visagens,
Seria mais um rincão…
Com sua gente e paisagens.