…Das Invernias – Leonardo Morales


2º Canto Missioneiro da Música Nativa – Santo Ângelo – RS – 2009.
Composição que recebeu os prêmios de 2º Lugar e Melhor Melodia. O músico Tiago Quadros, que fez participação nesta música, levou o prêmio de Melhor Instrumentista.

…DAS INVERNIAS

Letra: Jorge Nicola Prado
Melodia : Edison Macuglia
Intérprete: Leonardo Morales

La pucha que a madrugada se fez lobuna de tanto frio
Até o picumã da quincha sabe que o tempo vem de amargar
As almas atiçam brasas contando estrelas no chimarrão
E o chio da cambona velha espera o dia pra descansar…

O poncho dependurado pressente geada pela manhã
E o campo, senhor grisalho, larga fumaça sem chaminé

Quem sai pra longe das casas cruza invernadas de solidão
Vaqueano ajunta calor
que amanse de pronto inverno e revés

É… gastar cavalo em cada rincão junta razão
Imagem do bem querer no interior dos olhos seus
É… se a lida é bruta empresta valor por onde for
Cavalo, cusco, peão e as rédeas na mão de Deus

O sol já mete o fucinho e o galo ensaia no seu clarim
O cusco sai do borralho, forma cavalo deixa pra mim!
A toada que o minuano vem assobiando é linda demais
Reconta histórias de campo pra quem andeja mundos rurais

Um quero-quero percebe se um oh de casa! É de coração
Conhece por sentinela quando a querência joga de mão
E a vida que se renova nem sente a sova desses rituais
Assim, o corpo envelhece rezando a prece dos pajonais.

Campereada – Everson Maré


19ª Estância da Canção Gaúcha – Sao Gabriel – RS – 2012.

CAMPEREADA

Letra: Fernando Soares
Música: Jari Terres
Intérprete: Everson Maré

Que linda mirada me adentra nos olhos
– Um naco de pampa beirando a canhada…
E o sol madrugueiro que estende o varzedo,
Põe vida na estância, no altar da invernada.

O rancho que mira por sobre a coxilha,
– A velha silhueta que o campo conhece,
Um par de campeiros no rumo da lida,
Na mesma querência que o pago amanhece.

Meu pingo troteia de largo, por diante,
Pois saio na volta que cruza a picada;
Quem sabe descubra algum abichado
De alma groteira e sina extraviada…

O vento levanta nas horas do campo
E um pala floreia, luzindo o potreiro…
Um cusco ovelheiro, por bueno, de fato,
Campeia algum rastro de um sorro matreiro.

Um touro brasino sentindo o mormaço,
Faz ronda no passo da sanga atorada
– Que buena aguada que, outrora, tropeava…
Se o vento soprava do norte da estrada.

Eu saio campeando nos fundos do campo,
Na volta do cerro, costeando alambrado…
Reviso a cruzada que a seca descobre
E um lote de pampa recém desmamado.

Barranca e Fronteira – Antonio Augusto Graeff


9ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1979.

BARRANCA E FRONTEIRA

Letra: Antonio Augusto Fagundes
Música: Luiz Telles
Intérprete: Antonio Augusto Graeff

Quando chega o domingo
eu encilho o meu pingo
que troteando, sai…
Rumo às velhas barrancas
de histórias tantas
do rio Uruguai.

Eu sou fronteiriço,
de rédea e caniço
e o perigo me atrai.
Sou de Uruguaiana,
de mãe castelhana,
igual a meu pai.

Se a terra não é minha,
se a vida é mesquinha,
o que se há de fazer?
Mais um sonho nasceu
e o rio se fez meu,
nele vou descer…

Pra encontrar quem me espera,
morena e sincera
que é o meu bem querer…
Meu momento é aí
no chão onde nasci
e onde vou morrer!

Tem o verde do campo nos seus olhos
E um feitiço maleva que é puro veneno no caminhar!
Uma noite serena adormece, morena, em seus cabelos…
E seu corpo bronzeado é um laço atirado a me pealar.

Tristeza e alegria
são meu dia-a-dia,
já me acostumei.
Sou de campo e de rio,
tenha sol, faça frio,
lá, domingo estarei!

Barranca e fronteira,
canha brasileira
– assim me criei.
Com carinho nos braços,
galopo aos meus passos
e me torno um rei!

Agora, o meu dia-a-dia
só tem alegria,
tristeza deixei…
Encontrei, na verdade,
a outra metade
que tanto busquei.

Barranca e fronteira,
canha brasileira…
Feliz estarei!
Com carinho nos braços,
da prenda os abraços
e me sinto um rei!

Manuelito Montaraz – Leonel Gomez


23ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2015.

MANUELITO MONTARAZ

Letra: Rogério Ávila
Música: Leonel Gomez
Intérprete: Leonel Gomez

Com alma de corunilha
Cerne de pampa no más…
Segue atorando astilha
Manuelito Montaraz!

Com seu carro, seu cavalo
Seu machado assim tenaz
Corta a clave em cada canto
Manuelito Montaraz!

N’outro lado sua parceira
Serra os dois lados, se faz!
Prendido neste romance
Manuelito Montaraz…

Na sombra do arvoredo
O segredo se desfaz!
Simplesmente, simples vida
Manuelito Montaraz…

Um sol de ouro
Lua prateada
Se vê na estrada
Quem vem do monte
Pela picada!

A copla antiga
Floreia a vida
E traz de volta
Manuelito Montaraz!

A Flor da Solidão – Roberto Luzardo


12º Terra e Cor da Canção Nativa – Pedro Osório – RS – 2000.

A FLOR DA SOLIDÃO

Letra: Xirú Antunes
Música: Fabrício Harden
Intérprete: Roberto Luzardo

Faz dois invernos que não te vejo, chinita…
Morena linda que traz noites nos cabelos;
Mulher menina com pitangas pelos lábios
E um cheiro agreste de jasmim e maçanilha.

Lembro promessas na beira de um rio andejo,
Colhendo beijos pelas tardes veraneiras;
Teus olhos verdes qual o musgo das cacimbas
Maneavam ânsias do meu jeito estradeiro.

Faz dois invernos que eu aqueço a solidão
E jujo um mate com “marcela” das canhadas;
Pois tens o nome desta florzita outoneira,
Talvez, por isso, retornes antes da geada…

Foste num sestro de noiteira sesmaria…
Com crinas baias de luar por sobre a quincha;
E os quero-queros sem alardes na garganta
Pontearam notas de silêncio e romaria.

O imprevisto que atropela em retiradas
É um menino a rondar sempre a porteira;
Vai tironeando o coração emudecido
Na esperança de rever sua parceira.

Veterano – Leolpodo Rassier


10ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1980.
Composição vencedora da Linha Campeira, premiada com a Calhandra de Ouro, Troféu João Vargas e Canção Mais Popular; conquistou, também, o prêmio de Melhor Conjunto Instrumental (Os Serranos).

VETERANO

Letra: Antonio Augusto Ferreira
Música: Ewerton Ferreira
Intérpretes: Leolpodo Rassier e Os Serranos

Está findando o meu tempo
a tarde encerra mais cedo,
meu mundo ficou pequeno
e eu sou menor do que penso.

O bagual tá mais ligeiro,
meu braço fraqueja às vezes
demoro mais do quero
mas alço a perna sem medo.

Encilho cavalo manso
mas boto o laço nos tentos.
Se a força falta no braço
na coragem me sustento.

Se lembro o tempo de quebra
a vida volta pra trás.
Sou bagual que não se entrega
assim no mais.

Nas manhãs de primavera
quando vou parar rodeio
sou menino de alma leve
voando sobre o pelego.

Cavalo do meu potreiro
mete a cabeça no freio.
Encilho no parapeito
mas não ato nem maneio.

Se desencilho, o pelego
cai no banco onde me sento.
Água quente e erva buena
para matear em silêncio.

Neste fogo onde me aquento
remôo as coisas que penso.
Repasso o que tenho feito
para ver o que mereço.

Quando chegar meu inverno
que me vem branqueando o cerro
Vai me encontrar, venta aberta,
de coração estreleiro,

Mui carregado de sonhos
que habitam o meu peito
E que irão morar comigo
no meu novo paradeiro.

Um Regalo Pra Ana Flor – Marcelo Oliveira


27ª Comparsa da Canção – Pinheiro Machado – RS – 2014.
Composição que conquistou o Primeiro Lugar, Melhor Poesia, Melhor Intérprete (Marcelo Oliveira) e Melhor Instrumentista (Aluísio Rockembach).

UM REGALO PRA ANA FLOR

Letra: Henrique Calvete Corso
Música: Cristian Camargo
Intérprete: Marcelo Oliveira

Hoje mesmo pego a estrada
E vou rumo ao teu ranchinho…
Vou te levando um regalo,
Que alguém plantou, por carinho!…

Levo a florzinha amarela
A mais bela que despiu…
Que, ali, estava solita
E hoje cedo me sorriu.

Meu bagualão – pata branca –
Nem renega mais o freio,
Tem o caminho gravado
De tanta sova de arreio!

Me espera com mate pronto
Pra afogar o pó da estrada,
Tenho um beijo – por saudade
Pra te entregar na chegada.

Não tem mirada mais linda
Que a Ana Flor na janela…
Desencilho, frente ao rancho,
E entrego a flor amarela.

Junto à flor um verso pobre
Mas que é feito por amor,
Com palavras rabiscadas,
Do peito de um domador!