Falquejando – Jorge Freitas


18ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 1998.
Composição premiada com o Segundo Lugar e Melhor Conjunto Instrumental.

FALQUEJANDO

Letra: Miguel Bicca
Música: Sabani Felipe de Souza
Intérprete: Jorge Freitas

Diferença de palmo e serviço grosseiro,
Se não fica no plumo, é o prego que puxa.
Por isso falquejo no braço do pinho
Canções que só falam da alma gaúcha.

Meu verso é timbrado a casco de potro
No barro vermelho de algum corredor;
Às vezes é tigre cuidando da cria…
Às vezes cigarra cantando o amor.

Por isso que canto os versos que faço,
Falando de campos, de rios e cavalos,
De cordas trançadas, chalanas, machados,
E arroios bufando, e de como cruzá-los!

Quem canta os encantos do canto onde vive,
Tem mais do que muitos que canto não tem;
Se vão os poetas, mas ficam os versos,
Caminhos e rumos pra outros que vêm.

E a Saudade Vai de Tiro – Juliano Moreno e Vitor Amorim


5ª Nevada da Canção Nativa – São Joaquim – SC – 2010.

E A SAUDADE VAI DE TIRO

Letra: José D. Teixeira e Gujo Teixeira
Música: Juliano Moreno e Vitor Amorim
Intérpretes: Juliano Moreno e Vitor Amorim

Largo, ao tranco das esporas cantadeiras,
bem de pingo, ainda noite, levo o gado.
Tropa larga pra uma estância de fronteira
e a saudade vai de tiro no costado.

Num rosilho vou na estrada, faz dois dias…
Levo a noite e as estrelas nos pelegos,
vai a lua, debruçada, junto ao basto,
e a boieira que me diz que logo chego.

De manhã o sol clareia sem os galos
e o meu cusco, mais que amigo, é um campeiro,
volta e meia empurra a tropa na culatra,
mas se perde quando vai junto ao ponteiro.

Cruzo um mato e sinto o aroma das pitangas,
lembro os olhos e o perfume da minha linda,
que me adoça o caminho dessa estrada,
mas me aponta que tem mais estrada, ainda!

Pelo tempo, que tranqueia junto ao gado,
cuido as horas, pelo sol que ainda me guia…
Quando a sombra some embaixo do cavalo,
acho um passo, pra fazer um “meio-dia”.

No caminho fui deixando poeira e barro
e me vi abrindo a última porteira.
Foi a tropa mais ligeira do que a tarde,
fiquei eu e minha saudade companheira.

Tropa entregue, recomponho arreio e sonho,
dou de rédea, pego “as plata” e nem confiro,
volto “às casas”, rumo aos olhos da minha linda,
mudo o pingo e a saudade vai de tiro.

Da Aspa Pa’o Sangrador – Pirisca Grecco, Angelo Franco e Ricardo Martins


4ª Galponeira de Bagé – Bagé – RS – 2007.

DA ASPA PA’O SANGRADOR

Letra: Evair Gomez
Música: Ricardo Martins e Pirisca Grecco
Intérpretes: Pirisca Grecco, Ricardo Martins e Angelo Franco

A mão que afrouxava os látegos
Tirava as garras de cima…
Cruzando, sovava a crina
Do oveiro que se esvai

Foi contra a cerca de pedra
Do transcorral pra mangueira
E até a cuscada ovelheira
traquinava sem acoar

Uns vinham junto ao machinho
Outros sombreando ao estribo
E entre “êra” e silvidos
Tanqueava uma ponta de gado

Guardava a tarde os respingos
De cascos e patas no barro
Quando um boi abriu o tarro
Com ganas de refugar

A mão que afrouxava os látegos
Pelava enfim a cabeçada
E é sangria desatada
Num horizonte de maio

Foi contra a cerca de pedra
Que debruçou-se a cena
Numa estocada certeira
Da aspa pa’o sangrador!

Restou p’a trança da corda
Fechar a armada nos cascos
E a outra ponta do laço
Se apresilhar ao cinchador

Firmou as garras em outro
Pra levá o morto cinchado
Pôs-se a moldura do quadro
Da aspa pa’o sangrador!

Cá Na Cidade – Jean Kirchoff


30ª Moenda da Canção – Santo Anônio da Patrulha – RS – 2016.
Composição premiada com o Segundo Lugar.

CÁ NA CIDADE

Letra: Piero Ereno
Música: Piero Ereno
Intérprete: Jean Kirchoff

Daqui de cima, o sol nasce mais pertinho…
E um passarinho corta o céu em liberdade
Sem ter pousada nesta selva de concreto
Pra anunciar outra manhã cá na cidade.

Daqui de cima, não se vê rio nem canoa,
Só as pessoas navegando sem parar…
Se vão remando sobre um leito sem destino,
De um rio de asfalto que jamais encontra o mar!

QUERO O AMANHECER DE LÁ DE FORA:
IPÊS FLORIDOS, UMA CACIMBA E UM SABIÁ…
QUERO UM VIOLÃO PRAS NOITES MORNAS,
ENCHENDO A VIDA DA EMOÇÃO QUE AQUI NÃO HÁ.

De lá de baixo, quem me vê aqui em cima,
Por certo, segue seu caminho a perguntar:
Quem é este homem que, ao chegar o fim da tarde,
Mateia triste com uma lágrima no olhar?

Quando me apeio da sacada até lá em baixo
Tento encontrar, neste lugar, felicidade…
Mas não adianta, quem se criou campo afora
Não se acostuma à solidão cá na cidade!

Bacudo – João de Almeida Neto


6ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 1988.

BACUDO

Letra: Mauro Moraes
Melodia: Chico Saratt
Intérprete: João de Almeida Neto

Nasci bacudo, me criei pra fora,
mas um cambicho um dia me pegou,
me pôs cabresto onde eu domava a lida,
e ainda por cima me desarranchou.

Como voltar a gauderiar meu rumo,
pico-de-fumo, pito amarelado!
Se a gurizada que eu ralhava o mango,
ainda sem tranco e me lavando o amargo.

Me apaixonei, já logo de começo,
sabia eu aonde estava entrando,
nem sei se quero, nem sei se te mereço,
só sei que cedo, eu acabei casando.

De estampa guapa, melena tosca,
de pouca fala e mateio gacho!
Varro a varanda, desde que casamos,
eu que cozinho e ainda lavo as pratos!

Mas quando esse marasmo irá mudar?
O meu destino não foi feito pra “atá”,
olha compadre me desculpe o jeito,
vai levar tempo, pra alguém me “amansá”.

Diz que a saudade, deu cancha pro sol!
E que a distância anda por perto da visita,
me serve um trago, enquanto encilho o bagual,
não leve a mal, mas vou mudar de vida.

A Alma Caseira Desses Sonhadores – Gustavo Teixeira

16ª Comparsa da Canção – Pinheiro Machado – RS – 2002.

A ALMA CASEIRA DESSES SONHADORES

Letra: Gujo Teixeira
Música: Alessandro Ferreira
Intérprete: Gustavo Teixeira

A alma caseira desses sonhadores
Têm os olhos fechados quando ela quer;
Têm sonhos eternos e medos errantes
Nos olhos distantes de alguma mulher;
E, às vezes, se entrega por ser costumeira,
Mostrando-se inteira pra quem bem quiser…

Não sabe ainda das coisas do longe
Que a vida revela pra quem merecer,
Nem sabe que o tempo e a distância revelam
Saudades que levam a gente a esquecer…
… Das tantas volteadas e dores sentidas
Que amarram a vida só pra nos prender.

Guerreira alma caseira – olhai por nós…
Que cultivamos sonhos demais pra um corpo só;
Que andamos, às vezes, bastante perdidos…
Um pouco esquecidos nestes cafundós.
Pois tu que conheces todas minhas caras
Vem, solta as amarras, e desfaz esse nó.

Queria que o tempo mandasse notícias
Das vozes antigas que a garganta calou;
Memórias que a alma, às vezes, renasce,
Como se escutasse alguém que cantou
Os versos melhores daquelas saudade
Ou alguma verdade que o passado olvidou.

A alma caseira desses sonhadores
Não cabe no corpo se a vida extravasa,
Parece que ganha seus rumos intensos,
Às vezes, imensos pra força das asas…
E aos olhos dos outros se mostram constantes
Mas viajam distantes sem sair de casa.

Sacrificado – Marcelo Oliveira

16ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2008.

SACRIFICADO

Letra: Otávio Severo
Música: Marcelo Oliveira
Intérprete: Marcelo Oliveira

Gastei lonjuras nas cruzes de um mouro amigo
Sede de vento por ser andejo ao meu lado
Sei das estradas margens de pedra e espinho
Andei sozinho assim me vi sacrificado

Fui lua e tropa, constância dos corredores
Caminho largo pra quem se faz exilado
Sei do destino frente à luz da liberdade
Quando a saudade assim me viu sacrificado

Quem sabe o verso que nasceu da nostalgia
Que andou no mouro caminhante sonho e luz
Seja minha’lma que teimou em ser do campo
E assim cravada sacrificou-se na cruz

Por certo a lua verso claro que fui antes
Anoitecendo se perdeu na escuridão
Deixou de vir apaixonar-se num sorriso
Entre meus braços no colo do coração

Depois que fui caminho largo feito tropa
E andei sozinho sacrificando-me assim
Vim descobrir o porquê do meu verso triste
Que andou cismado e aos poucos disse pra mim

Pois há no verso a razão maior de sorrir
Há no sorriso a razão maior de sonhar
Floresce o campo como o sonho em sacrifício
É minha alma me pedindo pra voltar