Na Boca da Noite – César Oliveira


10ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 1999.
Troféu de Melhor Intérprete para o César Oliveira.

NA BOCA DA NOITE

Letra: Rogério Villagran
Música: César Oliveira
Intérprete: César Oliveira

Na boca da noite… costeando a picada,
Meu zaino que é um gato, se pára carancho…
Bombeando distante pras bandas do poente,
Parece que sente o calor de algum rancho.

Eu trago na estampa um jeito teatino,
Porque o destino quis que eu fosse andejo…
E a noite serena chega e me provoca
Campear a chinoca e roubar-lhe um beijo.

Um ventito manso me alvorota o pala,
Então eu me aprumo e tapeio o chapéu!
Enxergo teu corpo no clarão da lua,
E os teus lindos olhos brilhando no céu…

Eu sinto no peito um guasquasso “muy” forte,
E “inté” acho que tenho coração de potro,
Que bate ligeiro quando enxergo a flor…
… Se é meu esse amor, não preciso de outro.

A alma de um taura… que vaga solito,
Se pára mais quebra, rumbeando pro fim.
E as ânsias que tenho, acolherei com a gana
Que vem da “paysana” que espera por mim.

Já não vejo a hora de encontrar minha linda
E dizer o que trago entalado na goela…
A felicidade que tanto preciso,
Achei no sorriso que Deus deu pra ela.

Que lindo seria se um dia eu pudesse
Te erguer na garupa do meu zaino bueno;
Talvez me perdesse no toque dos dedos,
Campeando segredos de um corpo moreno.

Mas numa volteada, te levo comigo
Pro posto do fundo da Estância da Barra,
Pra ser minha dona e cuidar do ranchinho
E d’um pitionzinho que herdará minhas garras…

Madrugada – Marcelo Oliveira


6ª Nevada da Canção Nativa – São Joaquim – SC – 2016.

MADRUGADA

Letra: Adriano Alves
Música: Marcelo Oliveira
Intérprete: Marcelo Oliveira

Não vim dizer que a saudade
Hoje se apossou do mate;
Que a madrugada serviu…

Nem que as razões dos silêncios
Vieram chorar no lenço;
Os seus motivos de rio.

Enquanto a lua sonhava
Sua forma inteira, prateada;
Ainda vestida em minguante…

Encontrei meu verso amargo
Que há muito, andava minguado;
E que pensava, distante.

Mas chegou com voz de tempo
Talvez a mesma que o vento;
Insiste em soprar na quincha.

E adentra o simples do rancho
Beijando a carda do poncho;
Por entre o vão de uma frincha.

Meu templo sim, de alma e barro
Onde as orações do pago;
Repetem sua existência.

Frente a uma luz amarela
De um fraco toco de vela;
Frágil como a própria essência.

Talvez guardiã dos silêncios
Que ainda choram no lenço;
Os seus motivos de rio.

E que compreendem a saudade
Que hoje, se apossou do mate;
Que a madrugada serviu.

La Del Otoño – Rodrigo Jacques


1º Minuano da Canção Nativa – Santa Maria – RS – 2002.*

L A DEL OTOÑO

Letra: Rodrigo Jacques
Música: Rodrigo Jacques
Intérprete: Rodrigo Jacques

Cuando una brisa de otoño baje las hojas del seibo
El pasto se hará amarillo que ganas tengo de verlo

Que ganas tengo de ver los sauces ya deshojados
Asomándose en el monte mirando hacia el descampado

Mirando hacia el descampado quiero mirar a mi tierra
Firme como centinela que anda vichando una guerra

Otoño nunca me dejes
Pues tu silencio me calma
Y siento tus aires limpios
Como el cristal de tus aguas

El monte siempre es silencio pero en otoño es mas fuerte
El viento toca las hojas y va anunciando su muerte

Y va anunciando la muerte que de todo es el destino
Me despido de tus soles que en junio te agarra el frio

Que en junio te agarra el frio y me sobra leña que queme
Me cobijo con mi poncho y digo hasta el año que viene.

Jeito de Missioneiro – André Teixeira


16º Acampamento da Canção Nativa – Campo Bom – RS – 2017.

JEITO DE MISSIONEIRO

Letra: Jaime Brum Carlos
Melodia: Marcio Correia
Intérprete: André Teixeira

Sou missioneiro da cepa
Crioulo ali de São Luiz,
Onde bugio não é mico
E codorna não é perdiz…

Trago na pele o bronze
Dos sinos das reduções
Tostada pelo minuano
E pelos sóis de verões.

Meu serviço é de a cavalo
Nas domas e tropeadas,
Nunca nego uma ajuda
Nem corpeio uma quarteada.

Tenho um mouro bragado
Calçado nas quatro patas,
Um destaque nos rodeios
Luzindo o freio de prata.

Esse é meu jeito missioneiro, esse é meu jeito,
Quando abro o peito eu faço tremer o chão.
Esse é meu jeito missioneiro, esse é meu jeito,
O meu defeito é pensar com o coração.

Eu só faço o que eu quero
E o que Deus me permite
Só escuto o que me importa,
Não dou nem peço palpite.

Tenho um campinho lotado
– Ovelha e gado de cria –
Trabalho pra o meu sustento
Na luta do dia-a-dia.

Não dependo de favor
De governo ou de patrão,
Não entro em campo alheio
Se não tiver permissão.

Não abro mão do que é meu,
Se não for meu eu não quero.
Se for pra um mate e uma prosa
Podes vir que eu te espero.

Meu vício é mate e cachaça,
Carreira e jogo de osso,
Se eu lido co’o chinaredo
É por gostar de retoço.

No más, eu não sou melhor
E nem pior que ninguém,
Não precisam me ajudar,
Basta que me queiram bem.

Ijiquiquá – César Passarinho


19ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1989.

IJIQUIQUÁ

Letra: João Batista Machado
Música: Júlio Machado da Silva Filho
Intérprete: César Passarinho

“Hoje este canto que trago
É pra uma terra que é minha,
Que, embora, pequenininha
É a lua cheia do pago.”

Ah, mas que saudade tão louca
Da Querência das Três Bocas,
No meu velho Ijiquiquá.

E de um bolicho de tábua,
Cambicho lá da minha zona,
Onde eu floreava a cordeona
A troco de guaraná.

Ah, meus domingos de carreira
Quando eu – for de calaveira –
Gritando de toda voz.

Me jogava por inteiro
No pingo do melhor pêlo,
Por papel de caramelo
Que era um dinheiro pra nós.

Ah, quanta saudade da Anita
– Uma prendinha bonita –
Mais linda do que um Jasmim.

Quando me via por perto,
Sempre arrumava um jeitinho
De me mostrar seu carinho,
Piscando um olho pra mim.

Ah, mas que saudade tão louca
Da Querência das Três Bocas,
No meu velho Ijiquiquá.

Ah, um dia eu volto pra lá,
Vou pescar no Ijiquiquá
Como eu fazia em guri…

Vou cavalgar sobre as águas
E em sonhos, reculutando,
E ao tranquito irei tropeando
Toda a infância que eu vivi.

Hermanos Pampeanos – Raúl Quiroga, Vinícius Santos e Americanto


5º Canto Sem Fronteira – Bagé – RS – 2007.

HERMANOS PAMPEANOS

Letra: Juarez Machado de Farias
Música: Raúl Quiroga
Intérpretes: Raúl Quiroga, Vinícius Santos e Americanto

En cada punto del mapa
A lo largo de la pampa
Corre una rueda de mate
Y misma caña de guampa

Viven en ranchos humildes
Y casas grandes de estancia
Las mismas almas de ayer
Mismo rumbo y misma ansia

Son los gauchos y gaúchos
Português y español
La pampa es nuestra estampa
Abajo del mismo sol

Nada ya nos diferencia
Além de um simples acento
Los idiomas no separan
Lo que hermana el sentimiento

Goviernos que dictan reglas
No pueden cerrar porteras
Cuando son imaginárias
Las líñas destas fronteras

Sea una calle o un rio
En todo havera um puente
Que aproximen los pampeanos
En su interno horizonte

Habitantes de planuras
Moldados de geografia
Llevan dentro um Martín Fierro
Que de a poco se denuncia

Cuando las vozes se unem
Con guitarras milongueras
Soplan vientos de esperanza
Que embalan nuestras banderas

Fueran gauchos y gaúchos
Que hicieran patria a caballo,
Y forjaran en la pampa
La raiz de nuestra estampa

Ya nada nos diferencia
Além de um simples acento
Los idiomas no separan
Lo que hermana el sentimiento

Gaita Morena – Beto Ventura


12ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2012.

GAITA MORENA

Letra: Adilson Oliveira
Música: Adilson Oliveira
Intérprete: Beto Ventura

Quando a brisa da noite invade as frestas
E as cortinas em festa se põe a bailar
O clarão da lua pelas rendas floridas
Te beijam querida, te fazem brilhar
Lembro de outrora, menina campeira
Que em meu colo faceira junto ao fogo de chão
O pó do galpão tu guardaste contigo
E em teu fole escondido vive o meu coração

Foi clarim nas alvoradas
Seresteira do luar
Hoje nas sombrias madrugadas
Sobre a velha canastra a repousar
Nossos caminhos traçamos juntos
Cinqüenta anos assim passou
Meu canto abrindo as porteiras do mundo
Tua voz nas lonjuras cravada ficou

Velha gaita botoneira
Companheira, o meu par
Entre nós não há segredos
Pelos meus dedos te fiz falar.
Quanta saudade, “gaita morena”
Das pousadas, das bailantas
Nos teus braços minha percanta
Meu peito se abre a cantar

Tu sabes bem já faz algum tempo
Que preso ao meu leito vivo a penar
Minhas mãos já cansadas, corpo enfraquecido
Já não consigo mais te segurar

Só peço ao patrão nestes dias que findam
Que retorne minha lida nos galpões do céu
Te acariciar com meus dedos querida
Foi por toda a minha vida, o meu maior troféu

Fandango de Galpão – Gerson Brandolt


1º Canto Nativista da Canção Alegretense – RS – 2006.*

FANDANGO DE GALPÃO

Letra: Gerson Brandolt
Música: Gerson Brandolt e Gustavo Villaverde
Intérprete: Gerson Brandolt

Num ronco abagualado chorava uma de botão,
Num embalo bem cuiudo de fazer tremer o chão,
Dum galpão tosco e barreado, botando pelo ladrão.

Mas quem não gosta de um retoço animado,
Num galpão de chão batido, no garrão sul do estado!
Mas quem não gosta de um retoço animado,
Quando chora a botoneira não fica ninguém sentado!

O samba é bebida fina nestas festas galponeiras,
Trancão de clarear o dia, num estilo da fronteira,
E as “véias” batendo guizo, fofoqueando a noite inteira!

Mas quem não gosta de um retoço animado,
Num galpão de chão batido, no garrão sul do estado!
Mas quem não gosta de um retoço animado,
Quando chora a botoneira não fica ninguém sentado!

Gaiteiro rasga essa gaita, balança bem no teu jeito,
Deixa amorena comigo que o namoro eu ajeito…
Dorme um sono na chamarra, aconchegada em meu peito.

Mas quem não gosta de um retoço animado,
Num galpão de chão batido, no garrão sul do estado!
Mas quem não gosta de um retoço animado,
Quando chora a botoneira não fica ninguém sentado!

E Bamo Embora e Já Se Fumo – José Araújo e Grupo


2º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula – RS – 1987.

E BAMO EMBORA E JÁ SE FUMO

Letra: Carlos Moacir/Pedro Rodrigues
Música: José Araújo
Intérprete: José Araújo e Grupo

A “muié” se foi do rancho
Por não ter o que “cozinhá”
Não sobrou nenhum trocado
Pra dar leite pro piá

É brabo “nadá” de poncho
E “merguiá” de chiripá
Me desculpe o palavriado
É que nem deu pra “estudá”

E bamo embora e já se “fumo”
Que os “hóme” não são de nada
E em baile de cobra cega
Se dança de cola atada

O galo que abaixa a crista
E não entra no compasso
Se é taura, vira galinha
Não se escapa do puaço

Nesta peleia danada
Cuidado com o tal de banco
Periga perder as bombachas
E as botas virar tamanco

O negócio é “trabaiá”
Pra “engordá” o elefante
Se não dá pra criar vaca
Plante que ninguém garante

Mas abre o olho, “óia” o golpe
Que a “cousa” tá meia preta
Quem dança fora da raia
Não pode “mamá” na teta.

Da Boca Pra Fora – Luiz Marenco


12º Grito do Nativismo – Jaguari – RS – 1998.

DA BOCA PRA FORA

Letra: Gujo Teixeira
Música: Luiz Marenco
Intérprete: Luiz Marenco

Quando a palavra precisa da boca pra ganhar asas,
Tem sempre um beijo guardado pra esconder o que ela traz;
Tem sempre um lindo sorriso que sabe estancar a dor…
Porque a saudade faz parte da alma de um sonhador.

Cuidamos uma palavra pras horas que se precisa
Quando a voz tem sua vontade e por si se realiza…
E pode, por mal falada, ter sua garra afiada,
Deixando a vida marcada se o corte não cicatriza.

Tem vezes que a gente chora por coisas que nos habitam,
Que ficam dentro da alma olhando a vida de longe;
Tem vezes que o sal dos olhos deixa a tristeza correr…
Mas as lágrimas são minhas e de quem as merecer.

Quando a palavra incomoda, talvez, por ficar tão presa
E se acostuma ao silêncio que, volta e meia, impera;
Os olhos voltam pra si, o sorriso desencanta…
Pela voz que a alma trouxe e morreu junto à garganta.

Talvez por serem de tantos e tantas vezes falada,
A palavra traz a sina de, às vezes, não dizer nada;
Mas, quando menos se espera, fala à sua vontade
Deixando dentro da boca um gosto ruim de saudade.

Tem vezes que a gente chora!
Mas da boca pra fora…
…não fala nada.