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Benzido – Ita Cunha


10º Cante Uma Canção em Vacaria – Vacaria – RS – 2016.
Composição premiada com o Segundo Lugar, Melhor Letra (Adriano Silva Alves) e Melhor Intérprete (Ita Cunha).

BENZIDO

Letra: Adriano Silva Alves
Melodia: Juliano Gomes
Recitado: Juliano Gomes
Intérprete: Ita Cunha

Em nome “do filho” eu rezo
A mais perfeita oração;
Em nome “de pai” me ajoelho,
Benzido em teu nome, João…

João das luas que procuro
Nas tantas vidas inteiras;
Que se repetem nas noites,
Junto a um Rosário de estrelas.
Nas horas em que o silêncio
Veste a cor das madrugadas;
Dormindo em véu de sereno,
Sorrindo em pele de geada.

João do tempo que caminha
Com a paciência de uma espera;
Ventre da flor que rebrota,
Sem mesmo ser primavera.
Lágrima simples que choro
Sobre a forma dos meus dias;
Gotas de um rio cristalino,
Que encontra o mar, na poesia.

João dos versos que derramo
Na idade avessa do tempo;
Palavra que ganha vida,
Presa nos lábios do vento.
Que solitário repete
O que em silêncio escutou;
Mais puro gesto de amor!
Que a voz do “amor” pronunciou…

“João Henrique, tantas luas
Junto a um Rosário de estrelas;
João do tempo que caminha,
Nas tantas vidas inteiras.
João dos versos que derramo
Com a paciência de uma espera;
Ventre da flor, que rebrota,
Sem mesmo ser primavera”.

Em nome “do filho” eu rezo
Benzido em teu nome, João;
Em nome “de pai” me ajoelho,
Na mais perfeita oração…

A Meia Tarde no Açude – Jean Kirchoff


17º Ponche Verde da Canção Gaúcha – Dom Pedrito – RS – 2002.*

A MEIA TARDE NO AÇUDE

Letra: Davi Teixeira
Música: Tiago Abib
Intérpretre: Jean Kirchoff

Meio janeiro, meia tarde, sol inteiro;
Tajãs, marrecas cada qual mais tagarela;
Um touro berra em comando à sua esquadra
Que avança lenta até bater meia costela.

Ali se plantam, ancorados junto à taipa,
Tendo, por diante, a cerca viva de aguapé
E, logo ao lado, em alambrado imaginário
Vai demarcando território, um jacaré.

Cerco fechado apequenando a invernada
E, de lambuja, um lambarizal nos jarretes;
E o gadario não se assusta, mas entende
Que a tropa miúda requisita o ambiente.

Trocam olhares preguiçosos assolhados,
Equanto a eguada “bóca” firme a boiadeira…
E um quero-quero, lá no alto da coxilha,
Toca um clarim reconvocando a tropa inteira.

Enfileirados, passo a passo, sem alarde…
Na mesma marcha lá se vão campeando um verde,
Mas amanhã, no mesmo sol, à meia tarde,
Retornarão pra saciar calor e sede.

Fiel visagem rotineira de campanha,
Que enche os olhos de quem busca a quietude,
Pra esses campeiros que recorrem todo dia
Passa batida a sesmaria do açude.

Todo Esse Verde Nos Olhos – Luiz Marenco


9ª Estância da Canção Gaúcha – São Gabriel – RS – 2001.*

TODO ESSE VERDE NOS OLHOS

Letra: Gujo Teixeira
Música: Luiz Marenco
Intérprete: Luiz Marenco

Todo esse verde nos olhos
que a casa mira de frente
me vem do sangue ancestral
dos olhos de minha gente.
São mólhos e cinamomos
rincoes de mato e invernadas
sao campos e várzeas largas
que seguem além desta estrada.

Meus olhos sabem do verde
pois ajudaram a cuidá-lo
sao mansos rondando tropas
ágeis montando cavalos.
Temem um tempo escuro
pois sabem de olhos fechados
que nunca foram do campo
nos olharem do outro lado.

Todo este verde estendido
que os meus olhos sabem ter
não são assim, por acaso
sao verdes por merecer.
E assim por toda vida
vao sempre nos dar o pao
no ciclo normal do campo
serao dos meus que virao.

Depois das chuvas que choram
meus olhos verdejam mais
pois trazem na cor da terra
o gen que herdei de meus pais.
Pois o campo sabe o jeito
de entregar-se a um amigo
empresta todo o seu verde
pra amarelar-se de trigo.

Mas tem sempre alguém a olhar
e a desejar nosso verde
rondam as margens do rio
e morrem da própria sede.
Trazendo a dor e o escuro
afiando espinhos nos mólhos
pois nao sabem que este verde
me vem do campo pra os olhos.

Quando a Tarde Pousa no Santa Fé – Léo Almeida


7ª Ramada da Canção Nativa – Encruzilhada do Sul – RS – 2003.*

QUANDO A TARDE POUSA NO SANTA FÉ

Letra: Alex Silveira
Melodia: Mauro Marques
Intérprete: Léo Almeida

Quando a tarde cai, serena,
Pra repousar nas coxilhas,
Num catre de maçanilha,
Já num sebruno de outono,
A estância boceja de sono
Na solidão das campinas.

Até parece um postal
Que Deus, assim por singelo,
Pintou em tons de amarelo
Num quadro de nostalgia,
Pois quando descamba o dia
Forma um retrato tão belo.

E a tardinha, em silêncio,
Recolhe algum sonho em flor,
Pro galpão que o mateador
Transformou em catedral,
Quando esse xucro ritual
Pra poucos tem seu valor.

É assim a Santa Fé,
Com sua alma de estancieira,
Com sua terra de fronteira,
Quando uma tarde baiada
Vem beber em suas aguadas
Depois pousar na mangueira.

Senhora Dos Descampados – Jairo Lambari Fernandes


19ª Reculuta da Canção Crioula – Guaíba – RS – 2013.
Prêmio de Melhor Intérprete para o Jairo Lambari Fernandes.

SENHORA DOS DESCAMPADOS

Letra: Gujo Texeira e Rodrigo Bauer
Música: Jairo Lambari Fernandes
Intérprete: Jairo Lambari Fernandes

Senhora dos Descampados, ouve essa prece a lo largo
Que eu rezo em frente ao fogo, solito com meu amargo
Senhora dos Descampados, escuta aquilo que falo
Com meu olhar estendido que já nasceu de a cavalo

Eu sou campeiro e me habito nesse galpão de invernada
Um posto humilde, mas donde Deus sempre teve morada
Não sei o terço e na igreja não fui mais que umas três “vez”
Mas minha fé me acompanha nos trinta dias do mês

Rezo em silêncio nos campos, na sombra de algum capão
E embora eu não fale nada, escuta a minha oração
Livra o campeiro do tombo, do coice e do manotaço
Desvia o fogo do raio e as contra voltas do laço

Junto a esta cruz solitária, lhe deixo velas acesas
Pra lhe pedir que não falte, nunca, bóia sobre a mesa
Trago outra cruz de Lorena, dependurada no peito
Na bendição que me guarda em ser cristão, deste jeito

Na minha reza de campo, faltam palavras, eu sei
Mas tem a fé verdadeira, por tudo que eu conquistei
Te faço imagem em meus olhos, te vejo plena de céu
E frente a ti, me condeno, me calo e tiro o chapéu

Embora cuide dos campos, encontra um tempo pra mim
Eu nunca perco a esperança, alçada pelos confins
Eu sei que vida da gente tem sempre um rumo traçado
Por isso, rezo e lhe peço, proteja estes descampados.