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Cantando o Rio Grande com Voz de Bugio – Jones Andrei Vieira e Leomar Ferraz


24º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula – RS – 2015.
Composição premiada com o Segundo Lugar e Melhor Instrumentista para o gaiteiro Jones Andrei Vieira.

CANTANDO O RIO GRANDE COM VOZ DE BUGIO

Letra: Milton César Hoff
Música: Jones Andrei Vieira
Intérprete: Jones Andrei Vieira e Leomar Ferraz

O bugio não tá morto, o bugio não morreu,
Emalou sua alma pra matear com Deus!
Com a missão cumprida para o céu subiu…
Cantando o Rio Grande com voz de bugio!

São Chico! São Chico! Se achegou visita
Ilustre dos pampas que veio te ver.
Prosear, contar causos da gente gaúcha,
Encordoar a alma no eterno viver.

Prepara o borralho pra uma tertúlia,
Ajeite uns pelegos e puxa um banco,
Reúna os anjos com harpas, trombetas,
Na paz do Senhor vem “de pala branco”.

São Chico! São Chico! Em prece te peço:
– Acolhe este filho que em seu labor
Deixou para nós os mais belos regalos
Pra sempre ser “céu, sul, terra e cor!”

São Chico! São Chico! Rogai pelo povo
Aos que necessitam nos ranchos poveiros
Com as bençãos do Pai, que mande fartura
Quando de regresso chega um carreteiro!

São Chico! São Chico! No jardim do eterno
Com um lote de letras a colheita é farta.
A um homem de bem a “morocha não”!
“Pra sempre gaúcho” e “viva a bombacha”

São Chico! São Chico! A festa é pra ti,
É a volta de um filho que um dia partiu
E chega em casa com gaita e violão,
E convida os amigos pra cantar bugio!

Bimbarreando Uma Vaneira – Eri Cortes


2ª Manoca do Canto Gaúcho – Santa Cruz do Sul – RS – 2007.

BIMBARREANDO UMA VANEIRA

Letra: Salvador Lamberty
Música: Sérgio Rosa
Intérprete: Eri Cortes

Gosto da noite estrelada,
Desta vida da campanha,
Por todo o pago onde ando,
Minha gaita me acompanha.

Sempre que penso em fandango,
Me lembro da tia Picucha,
Que diz que a nossa vaneira
Não tem coisa mais gaúcha.

Gosto de tocar uma cordeona
Bem nos estilo da fronteira,
E me enroscar com as morenas,
Bimbarreando uma vaneira!

Não tem fandango sem gaita
E nem gaita sem vaneira,
Se aclimatou no Rio Grande,
Nas bailantas de fronteira.

Sempre que abraço a cordeona,
A emoção fala por mim,
Por isso, gente buenacha,
Que eu vivo cantando asism!

Nunca fui de perder vaza,
Minha gaita nunca empaca,
Trago a flor no pensamento
E o dinheiro na guaiaca.

Bimbarreando a vaneira,
Levo a vida satisfeito,
Guardando a alma gaúcha
Que se arranchou no meu peito.

A Modo de Anunciação – Lisandro Amaral


20ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2012.

A MODO DE ANUNCIAÇÃO

Letra: Sérgio Carvalho Pereira
Música: Juliano Gomes
Intérprete: Lisandro Amaral

Contra um fundo de invernada
Mais… muito mais que solito
Se agarra um rancho posteiro
Adonde acaba o infinito.

Morada e pouso de tropa
Légua e mais légua do povo
Não é antigo nem novo
Que o tempo ali não lhe toca.

Rancho sonoro de ventos
Arvoredos e cigarras
Bate compassos tão lentos
Quando a tardinha lhe agarra

E o seu morador, posteiro
Nessa bruta imensidão
Se transforma em guitarreiro
De duo com a solidão.

Pra quem toca este homem?
A modo de anunciação
Quando pulsa sua guitarra
De duo com a solidão.

“Cantará para o ponteiro?
Anunciando a comitiva
Na encerra do saladeiro
Canta pra tropa ainda viva.

Quem sabe para os chibeiros
Que entoam sem palavrear
Sussurando contra o vento
Cantam pra dentro ao cruzar.”

Ou canta pro peão campeiro
Longe… parando rodeio
Para o rangido do arreio
Companhia del nochero.

Cantará ao alambrador
Socando terra e moirão
Pra aquele que lavra a boi
Ouvindo o rasgar do chão.

Pra quem canta esse homem?
A modo de anunciação
Quando pulsa sua guitarra
De duo com a solidão.

Sozinho, canta pra si.
São todos pedaços seus
Canta pra sentir quem é
Nestes fundões de meu Deus.

Sentimentos – Adriano Gomes


15ª Reculuta da Canção Crioula – Guaíba – RS – 1999.

SENTIMENTOS

Letra: Anomar Danúbio Vieira
Música: Juliano Gomes
Intérprete: Adriano Gomes

Por vezes me acho na lida de campo
Repontando versos pra o rumo da aguada
Daqueles que entendem as coisas que digo
Pois são meus amigos de tempo e estrada

Por vezes me acho na beira do fogo
Sorvendo um amargo jujado de anseios
Daqueles que aquecem a alma ferida
Que vive esquecida do amor que não veio

Por isso me encontro com a velha guitarra
Nos finais de tarde
E assim eu descubro na paz do galpão
Meus momentos de livre

Então os caminhos se tornam seguros
Embora distantes
E alguma saudade eu amanso com jeito
No mundo da estância

Por vezes me perco num quarto de lua
No rastro de um sonho, nas horas sinuelas
Daqueles que sabe sabem o sentido do tema
Que molda o poema que fiz pras estrelas

Por vezes me perco tentando encontrar
O eterno lugar dessas rimas campeiras
Que arrancam milongas das vozes do vento
E tem sentimentos de pampa e fronteira.

Relato de Um Índio Bochincheiro – César Oliveira


6ª Vertente da Canção Nativa – Piratini – RS – 2002.*

RELATO DE UM ÍNDIO BOCHINCHEIRO

Letra: Rogério Villagran
Música: César Oliveira
Intérprete: César Oliveira

A gaita empeçava um choro,
Num floreio debochado…
E o baile tava enfezado:
China, cachaça e namoro!
Quando se ouviu um estouro
Bem no meio do salão…
Apagaram o lampião
E um teatino gritou: jogo!!!
E saltou cuspindo fogo,
Já manoteando o facão!

Ninguém sabia quem era
Nem tão pouco de onde veio…
Boitatá de algum rodeio,
Alma de alguma tapera;
Ou, talvez, quem sabe um qüera
Com fama de caborteiro,
Quem sem rumo e paradeiro
Se perdeu na volta feia,
Pois a vida é uma peleia
Que nos torna bochincheiro!

Foi marcada por desgraça
Aquela maldita noite,
Ninguém esquece o açoite
Daquela rusga machaça,
Templada pela fumaça
E pelo estouro dos ferros,
Contraponteando com os berros
Dos que apanhavam de graça!

A vida “muy” pouco vale,
Lhes digo neste relato!
Mas quem tem corpo de gato,
Mostra que tem “credenciales”.
Se apotra entre os “baguales”,
Que só dependem da sorte,
Quando a incerteza da morte
Se acolhera a outros males!

Foi ali que o índio touro
Mostrou ter parte com o diabo…
Agarradito no cabo
De um facão “marca besouro”,
Quando largava de estouro
O coração dava um pulo
E, “às vez”, largava de culo,
Cortando, por desaforo!

O choro do chinaredo
E o alvoroço dos machos,
Evocaram anseios guachos
E perpetuaram segredos;
Pois entre a raiva e o medo,
Sempre hay algo que atormenta,
Pois muita gente sustenta
O peso daquela carga…
Lembrando da noite amarga,
“Inté” a alma se lamenta!

O sangue frio e a coragem,
E os olhos incandescentes,
Demonstravam que o vivente
Era mais do que um selvagem…
Que só tinha, por bagagem,
A própria estampa de guapo:
Mescla de bugre e farrapo
Que acha a vida uma bobagem!

E, assim, se foi como veio
Quando saltou porta afora,
Quem a tantos ignora,
Faz parte de um mundo alheio.
Então, pensando, eu creio
Porque não seria o qüera,
A alma de alguma tapera,
Boitatá de algum rodeio!