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De Canto e Tropa – Robledo Martins (Califórnia)


32ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 2003.

DE CANTO E TROPA

Letra: José Carlos Batista de Deus
Música: João Bosco Rodrigues
Recitado: Xirú Antunes
Intérprete: Robledo Martins

“Será que ainda existem tropas
Nos sem fim dos corredores?
É o mundo novo indagando
Nossos antigos valores
Ponteiro, fiador, culatra
Campeiro empurrando boi
Há vestígios e lembranças
Mas a tropa pra onde foi?
Respondo ao bancar na rédea
Meu coração que galopa
Ao ver meu pago cantando
Me volta a imagem da tropa”

Com a cavalhada por diante
Vem na ponta um missioneiro
Trazendo a alma na goela
E algum recuerdo posteiro
Parece chamando a tropa
Um general de sombreiro

Piás taludos e outros mouros
Rondam chuva e polvadeira
Fazendo encordoar a tropa
Nas gargantas cantadeiras
Sempre acoando no costado
Um canhoto de madeira

Mistura canto e encanto
Quem reponta seus anseios
E continua torena
Cruzando pagos alheios
Embalando a própria vida
Com melodias de arreios

Pra quem herdou esse dom
De cuidar coisas do campo
Mais vale a brasa de um fogo
Do que o clarão dum relampo
Pois alumbra seu caminho
Na luz que brota do canto

O canto é a tropa mensagem
Pedindo pouso e aguada
Tem notas feitio de casco
Riscando vaus e picadas
Quem canta, planta sementes
Pra germinar pela estrada.

Cantando o Xote – Cláudia Soares e Beto Pires


8ª Tertúlia Musical Nativista – Santa Maria – RS – 1987.
Composição que conquistou o troféu de Música Mais Popular.

CANTADO O XOTE

Letra: José Roberto C. Pires
Música: José Roberto C. Pires
Intérpretes: Cláudia Soares e Beto Pires

Eu vou cantar, cantar é bom
um xote, um tom
que seja alma e harmonia,
se perguntar pra quê cantar
Vou responder e assim dizer,
que o xote é bom.

Pra se cantar uma canção de amor,
pra se dançar assim bem marcadinho,
pra enxotar tristeza o xote é bom,
se bem juntinho ainda mais.

Não tem calo nem dedo inchado,
e apertado o pé,
um xotezito bem marcado,
que beleza é,
dança João, dança Maria,
Chico, Pedro e Terezinha,
e solta a gaita Zé.

Blanquita – Ita Cunha


33ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 2013.
Composição premiada pela Melhor Letra.

BLANQUITA

Letra: João Stimamilio
Musica: Carlos Madruga
Intérprete: Ita Cunha

Tordilho ligeiro, nas raias campeiras
Da cor das melenas, que o tempo pintou
A baba no freio do pingo “amilhado”
O céu estrelado, bandeira de paz…
Um rancho caiado, florada de trevo
O branco dos olhos de algum montaraz…
No mate servido; relatos da vida
E os olhos da noite, enxergam por mim…

Blanquita nochera… De alma lavada…
Blanquita geada… Rigor da estação…
Cadente ruana, num vôo sem fim…
Blanquita: um sorriso de lábios carmim…
Blanquita nochera… Blanquita virada…
Blanquita perfume… Da flor do jasmim!
Blanquita abre a porta que o dia tá aí…
Blanquita milonga… Não deixa dormir!

Apojo das mansas, o leite nos tarros
Terneiros a campo: começa a manhã
Flor de pitangueira; espuma de arroio
Cordeiros do agosto, as bolsas de lã
Num raio de Lua, os sonhos caminham
Na volta do fogo, eu sigo contigo
O lenço “chimango” esquece da guerra
E a Dalva no céu, bombeando pra terra…

A Morte de Um Potro – César Oliveira e Rogério Melo


10ª Estância da Canção Gaúcha – São Gabriel – RS – 2002.

A MORTE DE UM POTRO

Letra: Rogério Avila
Música: Carlos Madruga
Intérpretes: César Oliveira e Rogério Melo

Na pata do potro o talho do arame,
Do sangue no pasto o golpe no chão,
Se desata a rédea e a campana do estrivo,
Vai sonando nos bastos, numa prece ao rincão.

A morte de um pingo na lida da doma
É tristeza que assoma no olhar do campeiro,
Se vinha blandeando, terciando com a espora,
Num berro que agora é silêncio ao potreiro.

Assim cruza o rastro o índio vaqueano,
Buscando abandono do que amadrinhou,
Saber da trompada que viu contra o mato
E o potro veiaco se descogotou.

Retornam chilenas e as cordas de arrasto,
A cincha e os bast’ numa ausência de lombo,
Ficou um pedaço da pampa estendido
E o pago sentido no quadro de um tombo.

Talvez a querência anoiteça mais triste,
Mas o campo se arrima na sorte de um outro,
Ficou a mirada, lembrando do estouro,
Na falta do couro das garrão de potro.

Tormenta – Joca Martins


4ª Ramada da Canção Nativa – Encruzilhada do Sul – RS – 1994.
Composição que premiou como Melhor Instrumentista o violonista Marcello Caminha.

TORMENTA

Letra: Severino Moreira
Música: Zulmar Benitez
Intérprete: Joca Martins

“Um Fenômeno Natural”

Se tisnam tons de fumaça
De contra o fio do horizonte
E o vento trás num reponte
Gavionas de cola alçada
Lobunas entropilhadas
Redemoneadas na poeira
Rompendo pelas porteiras
Que nem tropa estourada.

A pampa se empardece
Prenúncio de temporal
E uma tropilha bagual
Alinha a cola pra chuva.
O céu manto de viúva
Se desbota no aguaceiro
Quando um raio matreiro
Afocinha na timbaúva.

Trovoadas que se repetem
Como touro em desafio
E o vento faz corrupio
Na crista dos arvoredos
A lua talvez com medo
Nem dá sinal de vida
E a tarde estremecida
Já se recolhe mais cedo.

Um raio na cola do outro
Se reflete no açude
Rasgando a negritude
Dessa tarde azarenta
Lembro o taura que aguenta
N’alguma ronda de tropa
Onde até a alma se ensopa
Na fúria de uma tormenta.