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Recorrendo – Leonel Gomez


16ª Tafona da Canção Nativa – Osório – RS – 2004.

RECORRENDO

Letra: Anomar Danúbio Vieira
Música: Leonel Gomez
Intérprete: Leonel Gomez

Dou água à vontade pra zaina tapada
E estendo a mirada no plano da várzea.
Neste ofício antigo de cuidar do gado,
Cruzo o vau do passo bem ao sul das casas.

Vou costeando a sanga até encontrar a cerca,
Recorrendo o campo, campereio a vida…
De repente um bando de caturra invade
A amplidão da tarde, ensurdecendo a lida.

Quando prendo um grito e a cuscada bate,
Do banhado salta o gaderiu de cria…
Parando rodeio, repasso os terneiros,
Já que a parição vem encordoando os dias.

Primavera linda que adentrou chuvosa,
Prenunciando pasto e graxa na boiada;
Se o verão for brando, “benza Deus” eu saio
Bem antes de maio com tropa na estrada!

Andava no rastro de uma vaca pampa
Que abichou na guampa e se enfurnou no mato!…
Hoje se topou com a precisão do braço
E a volta do laço se ajeitou, de fato!

Sigo, tempo afora, num tranquito calmo…
Eu conheço – a palmo – esta imensidão;
O meu mundo é esse: terra santa e buena…
Na sina torena de viver de peão!

Quando o Poncho Bota o Culo – Ângelo Franco


18ª Tafona da Canção Nativa – Osório – RS – 2007.
Composição que levou o primeiro lugar na Linha de Manifestação Campeira e o Troféu Tafona de Ouro.

QUANDO O PONCHO BOTA CULO

Letra: José Carlos Batista de Deus e Eduardo Muñoz
Melodia: João Bosco Ayalla
Intérprete: Ângelo Franco

“Que o negro Jorge morreu
Se soube por noticiário
Que apenas contou do fim
Sem tempo pra comentários
Assunto pra mais de mês
Na boca do vizindário”

Nem pode lavar o mate
Ao ver as águas subindo
Saltou em pêlo na baia
No amanhecer de domingo

Sabia que a eguada mansa
Ficara ilhada na costa
Não se mede sacrifício
Pra aquilo que a gente gosta

Negro Jorge era vaqueano
Das cheias de galho a galho
Mas uma zaina gaviona
Ponteou buscando um atalho

A correnteza é um mistério
Parece um tiro de laço
Por isso que não assusta
Quem tem confiança no braço

Não é que a baia resvala
Já quase subindo a taipa
Depois de bandear o rio
Feitio de fole de gaita

O posteiro que ajudava
Atropelou pra barranca
“Inda” viu a mão do negro
Sumindo na espuma branca

Uma baia cabos negros
Saiu “solita” do rio
O chapéu acharam logo
E o mango nunca se viu

O poncho que escorou águas
Agora se vai com elas
E os olhos que se emalaram
Emprestam lume pras velas

Ficaram dois ovelheiros
Uivando em frente da ilha
Nem mesmo a noite de chuva
Quebrou aquela vigília

Será que ouviam o negro
Talvez pedisse em socorro
É norma de tempo e vida
O dono “perdê” os cachorros.

Pássaro Perdido – Marco Aurélio Vasconcellos e Os Posteiros


8ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1978.
Composição vencedora na Linha de Manifestação Rio-Grandense. Os Posterios conquistaram o troféu de Melhor Conjunto Instrumenmtal nessa edição da Califórnia.

PÁSSARO PERDIDO

Letra: Gilberto Carvalho
Música: Marco Aurélio Vasconcellos
Intérpretes: Marco Aurélio Vasconcellos e Os Posteiros

Bom cavalo, arreio bom
Pilcha simples, bem cuidada
E uma estampa de monarca
Mesmo tendo quase nada

Palha, fumo, carne gorda
Erva buena não faltava
Pro índio flor de campeiro
Serviço sempre sobrava

Veio a visão da cidade
E o pago se fez lembrança
Hoje amarga dura vida
Num pôr-de-sol de esperança

Cativo ao brete das ruas
Como pássaro perdido
Negaceando alguma changa
Pro prato tão diminuído

Por isso, quando se encontra
No espelho fundo de si
Ouve o tempo debochando
“Bem-te-vi, já te vi bem
Já te vi bem, bem-te-vi”.

O Choro da Carreta – Leonardo Díaz Morales


20ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2009.
Composição premiada com o Segundo Lugar e o Melhor Arranjo.

O CHORO DA CARRETA

Letra: Rafael Teixeira Chiappetta
Música: Sabani Felipe de Souza
Intérprete: Leonardo Díaz Morales

Chora carreta, chora…
Chora teu choro na estrada,
Chora no passo dos bois
Que a pua vem da guilhada.

Gemendo vai a carreta
E o rumo fica traçado,
Pede passagem na pampa
Com seu gemido chorado.

Chora carreta chora…
Chora teu choro manhoso,
Chora carreta gaúcha
Pra virar rancho no poso.

Quando parada a carreta
É o rancho do carreteiro
É só leva na quincha
A casa do João Barreiro.

Chora carreta, chora…
Chora teu choro entoado,
Chora carreta esquecida
Como chamando o passado.

No gira-gira da vida,
Sempre virá o depois…
Hoje se vai a carreta,
Sempre na frente dos bois.

A pressa veio maleva,
Golpeado aquele que corre…
Alubunou-se as estradas
E mais ligeiro se morre.

O tempo vem sem piedade
Com outro clamor no bordão,
Então ficou a carreta
Chorando na minha canção.

Na Ponta do Laço – Joaquim Brasil


10º Canto Farroupilha de Alegrete – Alegrete – RS – 2018.

NA PONTA DO LAÇO

Letra: Maximiliano Alves de Moraes
Melodia: Joaquim Brasil e Gustavo Vilaverde
Intérprete: Joaquim Brasil

Uma tropa que tranqueia
Em derradeiro reponte,
Deixando poeira saudosa
A se sumir no horizonte.

Como a carreta toldada
Que já descansa silente
Formando imagem prostrada
Contra o vermelho poente.

Igual a um baile de rancho
Que o candeeiro apaga a chama,
Ou uma cerca de pedra
Trocada por aço e tramas.

Se vai o canto gaúcho
Junto com a sua essência!
Segue aguentando o repuxo
Quem tem alma de querência!

Como uma quente porfia
Rodeando um fogo de chão,
Que já perdeu argumento
E o frio invade o galpão.

Ou como um tiro de bola
Da mão de um índio charrua,
Que já virou Três Marias
Pra bolear quartos de lua.

Mas há canários pampeanos
Que ainda cantam com glória.
Cantar querência e passado
É manter viva uma história!

E atira a armada dos versos
Para manter seu espaço
E o tirador dos legados
Escora a ponta do laço!

Lembranças – José Fernando Santos e Os Cantores dos Sete Povos


4ª Ciranda Musical Teuto-Riograndense – Taquara – RS – 1980.

LEMBRANÇAS

Letra: Telmo de Lima Freitas
Música: Telmo de Lima Freitas
Intérpretes: José Fernando Santos e Os Cantores dos Sete Povos

Quando as almas perdidas se encontram…
Machucadas pelo desprazer,
Um aceno dum riso, apenas,
Dá vontade da gente viver.

São os velhos mistérios da vida,
Rebenqueados pelo dia-a-dia…
Já cansados de tanta tristeza
Vão em busca de nova alegria.

Ao morrer desta tarde morena,
Quando o sol, despacito, se vai…
As lembranças tranqueiam com as águas
Passageiras do rio Uruguai.

As guitarras, eternas cigarras,
Entre as flores dos velhos ipês,
Sempre vivas, dormidas se acordam,
Na lembrança da primeira vez.

Golpes – César Oliveira


17ª Ronda de São Pedro – São Borja – RS – 1998.
Composição vencedora do Terceiro Lugar.

GOLPES

Letra: Carlos Omar Villela Gomes
Música: Evandro Zamberlam
Intérprete: César Oliveira

Num golpe de sorte joguei o meu laço…
Pealei, nesse abraço, um sonho qualquer;
Cruzei os destinos na linha da vida,
Ganhando a corrida, seguindo de pé.

Num golpe de vista mirei o horizonte,
Campeando repontes de luz e paixão;
A força da alma brotou por acaso,
Clareando o ocaso do meu chimarrão.

Cansado da estrada, forjei outra sina
No bronze da china que me enfeitiçou…
E a paz, que eu buscava nas trilhas compridas,
Achei na guarida que a vida mostrou.

Num golpe de adaga sangrei a incerteza,
Larguei a tristeza de um mundo tão só;
Busquei as verdades de um rumo seguro
E vi que o futuro não era de pó.

Assim fui deixando meu tino gaudério
Na luz de um mistério de estranho sabor
E o beijo mais puro que tive nos lábios,
Calou meus ressábios num golpe de amor.