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O “Loco” da Gaita – Jorge Freitas e Nilton Ferreira


21º Carijo da Canção Gaúcha – Palmeira das Missões – RS – 2006.

O “LOCO” DA GAITA

Letra: Severino Moreira
Música: Zulmar Benitez
Intérpretes: Jorge Freitas e Nilton Ferreira

Que gaiteiro mais bagual,
Até parece um “endiabrado”,
Deixa os machos se babando
E o chinaredo assanhado.
Quando rasga a “oito soco”
Num chamamé debochado.

Há quem diga que é “loco”
E que a loucura não tem fim
Quando faz a gaita velha
Zunir qual camoatim,
Bendita seja loucura
Que te fez tocar assim.

No solfejo deste fóle
Sopra cinza de tição,
Recendendo à carne gorda
E ronco de chimarrão.
Carrega a querência inteira
Nessa gaita de botão.

Se dengueia chinóquinha
Ouvindo “Pra Ti Guria”,
Como pode essa gaita
Tirar as notas que tira?
Será parte com o capeta
Ou um anjo que te inspira?

Por vezes é uma lacraia
Que se torce e se revira,
Outras um cavalo xucro
Cutucado “nas virilha”
Ou a pureza materna
Da vaca lambendo a cria.

Às vezes parece cobra
Quando sai errando o bote,
Outro sopro do minuano
Ou talvez o vento norte.
Ou um bando de caturra
Conversando com os filhotes.

Nas Entrelinhas do Show – Léo Almeida


29ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1999.

NAS ENTRELINHAS DO SHOW

Letra: Vaine Darde
Música: Mauro Marques
Intérprete: Léo Almeida

Pelos cortiços dos becos,
no vai-e-vem do metrô,
pelos balcões dos botecos,
nas entrelinhas do show…
No lado pobre do povo
os sonhos se despedaçam
e um vento sopra, de novo,
na insensatez dos palácios.

É a bailarina do morro
que não possui sapatilhas,
o estudante faminto
que não aprende a cartilha,
-uma angústia de esporas
nas cicatrizes da doma –
é um palhaço que chora
num picadeiro sem lona.

Porém, no tom dos tambores,
no horário nobre da tela,
a dor se veste de flores
e a vida vira novela.

Na histeria do estádio,
no samba-enredo da escola,
no som das ondas do rádio,
no gol que sonha na bola:
uma estranha alegria
que faz o povo feliz:
no ópio da fantasia
a embriaguez do país.

É o menino de rua
que cola a infância no vício,
nossas meninas, tão nuas,
crucificadas no ofício…
É o pedreiro, sem casa,
na corda bamba do andaime
que, às vezes, voa sem asas
e se liberta da fome.

Me Chamo Verso e Confesso – Flavio Hanssen


30ª Moenda da Canção – Santo Anônio da Patrulha – RS – 2016.

ME CHAMO VERSO E CONFESSO

Letra: Mateus Neves da Fontoura
Música: Andrigo Xavier
Intérprete: Flávio Hanssen

Me chamo verso e confesso
Perdi-me em muitos rincões
Ando na boca e nos sonhos
Que acendem lua e fogões
Vivo em estrada e galpões
Conheço o campo e a cidade
Se me despeço, a saudade
Remalha em mil corações…

Por rumo trago a esperança
Apresilhada na voz;
Sou campo largo e enchente
Sou rio distante da foz…
Sou a alma dos avós
E seiva que não se esvai,
Pois guardo a calma de um pai
Que cuida antes… e após!

Se alguma folha em branco
Acolhe o meu destino
Renasço em rima e flor
No fio de um desatino…
Sei que a querência que eu procuro
Vai além da sesmaria…
Eu sou o verso e confesso:
Não vivo sem poesia!

Empresto corpo à alma
Sangrando pena e dor
E ainda sou o espelho
Pra refletir o amor
Porque as mãos que me partejam
Vêm da alma que me aquieta…
Eu sou o verso e confesso:
– Tenho a tua vida poeta!

Frente Ao Teu Grito de Forma – Índio Ribeiro


18ª Vigília do Canto Gaúcho – Cavhoeira do Sul – RS – 2007.

FRENTE AO TEU GRITO DE FORMA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran
Intéprete: Índio Ribeiro

De cacho atado troteia firme o meu mouro
Luzindo a estampa de pingo dos meus arreios
Me balanceio e tenteio dum estribo ao outro
Rumo ao povoado, no reponte deste anseio

Meu mouro pampa que se embala nas ponteadas
Masca o bocal com jeito de redomão
Se balanceia, babando uma espuma branca
Passarinheiro, quase nem pisa no chão

Eu trago a alma já templada pela gana
De atar meu mouro no palanque da ramada
Na manhã clara de um domingo ensolarado
Que se destapa no olhar de quem me agrada

Onde te vejo mais linda que a estrela D’alva
Ânsia e feitiço, graça da flor do aguapé
Que me volteia o domínio do teu encanto
E um rancho pampa quinchado de Santa Fé

Como eu queria que este mouro que hoje encilho
Tivesse a marca deste simples domador
Pra que eu pudesse, junto ao carinho de um mate
Dar de presente pra ti, com sincero amor

Mas algum dia se Deus quiser, lá na estância
Por uma doma, se o patrão me permitir
Redemoneio um picaço lunarejo
Que tá orelhano e dou de presente pra ti

Toso à capricho, corto os casco e adelgaço
Ajeito um nome que seja do teu agrado
Não sou guasqueiro mas pra minha linda eu me atrevo
E com carinho faço um preparo ponteado

Eu sei que é pouco pra ti que merece tanto
Talvez um dia o meu destino seja outro
E eu me costeie frente ao teu grito de forma
E tu embuçale o meu coração de potro.

Entre os Mouros da Tropilha – César Oliveira


1ª Nevada da Canção Nativa – São Joaquim – SC – 2003.

ENTRE OS MOUROS DA TROPILHA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran e César Oliveira
Intérprete: César Oliveira

Entre os mouros da tropilha hay um que é mui “melindroso”
Que o índio sendo sestroso não enfrena, nem encilha
Entre os mouros da tropilha um “cabano” me arrepia
Não temo “la policia” quando trago ele calçado
Pra prosear com o delegado dentro da delegacia

Entre os mouros da tropilha “me gusta” muito um retaco
Flete de guerra, um naco, pras garras de um farroupilha
Entre os mouros da tropilha falo de um que me facina
Sinto me encharcar a retina, “mira lo que son las cosas”
Batizei de rouba-moça depois que roubei a china

O meu instinto se apotra quando amanheço aporreado
Com meu sombreiro tapeado de encostar uma aba na outra
Minhas esporas marotas se adelgaçam nas presilhas
Porque conhecem a forquilha que vem de buçal na mão
Pra embuçalar um macharrão entre os mouros da tropilha

Entre os mouros da tropilha a mim me agrada da estampa
E um machaço mouro pampa com uma Braga na virilha
Entre os mouros da tropilha um mouro do mesmo pêlo
Parece que “alza vuelo” no vai-e-vem do confronto
Quando leva nos encontros o refugo pra sinuelo

Entre os mouros da tropilha um “oscuro” flor de pingo
Pra uma tarde de domingo é uma xucra maravilha
Entre os mouros da tropilha pra uma noite de bochincho
Chego a escutar o relincho de uma imagem sonhadora
Com orelhas de tesoura, mouro garrão de capincho!