O Forasteiro – Luiz Marenco e Marco Aurélio Vasconcellos


27ª Califórnia da Canção Nativa – Uruguaiana – RS – 1997.
Composição campeã do festival, recebeu a Calhandra de Ouro.

O FORASTEIRO

Letra: Vinicius Brum e Mauro Ferreira
Música: Luiz Carlos Borges
Intérpretes: Luiz Marenco e Marco Aurélio Vasconcellos

Na sombra de um bolicho à beira estrada
Daqueles que do mundo se perdeu
Encontra-se uma gente reunida
A espera de um chamado de seu Deus

Perfumes de bom fumo amarelido
Paredes com suas almas penduradas
Paciências de um lugar envelhecido
E uma coragem de quem não tem nada

Apeia um forasteiro:
– O que é da vida?
Responde o bolicheiro:
– Está cansada…
A gente de bombacha anda esquecida
Desiludida nos beirões da estrada

Buscamos nossa terra prometida
Um mundo pras crianças e pros velhos
O sul que nós sonhamos onde a vida
Devolva o que branqueou nossos cabelos

Mas cada ano a seca de janeiro
Precede um novo inverno de asperezas
Parece que o destino do campeiro
Não pode pedir mais que pão na mesa

E aos poucos, o que diz o bolicheiro
Se multiplica em vozes pelo ar
E volta a se calar o forasteiro
Junta o violão no peito pra cantar

– Já vi quase de tudo em minha vida
Há séculos que ando pela estrada
Vi a morte sobre a terra prometida
E a vida sobre a terra abandonada

Vi um homem pondo fogo na colheita
Enquanto outro semeava num deserto
Já vi perto o que ontem era um sonho
E longe vi o que sempre fora certo

Um povo sonha Deus à sua imagem
E Deus devolve a terra a cada povo
Moldada no trabalho e na coragem
Que o povo usou pra levantar o sonho

Aqui é nosso inferno e paraíso
A vida é uma planta por cuidar
Há que morrer por ela se preciso
O sul, somente o sul pode salvar

Assim falou pro povo o forasteiro
Depois montou e envolto num clarão
Sumiu emoldurado pela tarde
Bem como o sol dissipa a serração

Uns dizem que mais alto do que os cerros
Ele segue abençoando este rincão
Mas muitos acreditam que essa gente
Ouviu a voz do próprio coração

O certo é que um a um se foi às casas
Porque havia uma planta por cuidar
Arar a terra a cada madrugada
Para a semente que há de germinar

O homem faz seu Deus que faz o sonho
Um sonho azul maior que este lugar
Na luz que vem dos olhos dessa gente
O sul um dia se iluminará.

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