Eis Me Aqui – Talo Pereyra


36ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 2016.
Composição premiada com o Segundo Lugar, Mehor Letra e Melhor Intérprete.

EIS ME AQUI

Letra: Robson Barenho
Música: Talo Pereyra
Intérprete: Talo Pereyra

Eis me aqui músculos, nervos
e mais de duzentos ossos
sem causa para remorso
sem obra de algum relevo
pés de valsae olhos negros
língua afiada, lábios grossos
braços de afeto e esforços
asco e ódio ao cativeiro
vinte e oito dentes inteiros
e ociosos se não almoço.

Eis me aqui boca e orelhas
pulmão ferido a fumaça
duas cordas vocais falsas
e mais duas verdadeiras
voz rouca de orvalho e poeira
tempo, sol, farras, arruaças
protestos contra as mordaças
murmúrios as companheiras.

Eis me carinho e escarro
sem cetro, coroa ou trono
alheio a santo ou demônio
de pedra, pau, gesso, barro
quem sabe insano e bizarro
de tanto que me apaixono
coração em pandemônio
bafo de vinho e cigarro

Vim, passaporte sem vistos
asas aos ventos gerais
alamedas, lamaçais
roseiras, ipês, granito,
bordéis, palácios, presídios,
salões, veredas, currais,
gentes, coisas, animais,
histórias, fábulas, mitos

Eis me aqui, depois de muitos
entre muitos e antes dos outros
não me serve de conforto
que ao céu vão os bons e os justos
sob escárnio dos corruptos
agonizo junto aos probos;
sei: o sol nasceu pra todos
mas serve aos reis mais que aos súditos
e nunca foram os últimos
os donos de terra e de ouro.

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