Ranchito – Érico Rodrigo Padilha


6º Celeiro da Poesia – Abdon Batista – SC – 2018.
3º Melhor Poema, Segundo Melhor Amadrinhador (Luidhi Moro Müller).

RANCHITO

Letra: Matheus Costa
Amadrinhador: Luidhi Moro Müller
Declamador: Érico Rodrigo Padilha

Chega doer-me, ranchito,
hoje cruzar, te rondando.
Como somente esperando,
deste adeus, um recomeço!

Eu te vejo pelo avesso,
tu me enxergas, logo, o mesmo;
…Será então que andejo à esmo,
num rumo que desmereço?

Tu, por tapera, devias,
ao menos, contar-me um tanto
deste sentir – duro espanto
com a alcunha “solidão” –


…Ou talvez, dar-me razão
de te olhar com esperança,
ressuscitando a lembrança
que me prende o coração.

Eu só lamento, ranchito,
teres dois olhos benditos…
…não janelas bem postadas.

Quando te cuido, parece
que não mais vives de escombros;
Pois me atiças, com assombro,
rubro ciúme doentio.


Tu que, há pouco, eras vazio
chega renascer, radiante…
…Feito o sol que vem, brilhante,
sangrar o campo sombrio.

Como então não recordar
que habitei teu interior?
Ranchito erguido de amor…
…ruído quando deixado!

Ciscos na porta, trancado,
onde a mão da liberdade
afagava… e por vontade
foi atendo escancarado.

Eu só lamento, ranchito,
teres dois olhos benditos…
…não janelas bem postadas..

Tu, por tapera, devias
não mostrar tamanho encanto
nem mesmo causar-me o pranto
quando encontro a tua mirada.


Tu, que és história tombada,
como ousas tal direito
de ainda habitar o peito
de quem te habitou, morada?

Muito embora sempre altivo

semblante que não padece –
Quando chove, bem parece
que choras pelas paredes;
E eu me vejo pasto verde,
bebendo as gotas que largas
que saciam (mesmo amargas)
mi’a saudade, que tem sede.

Eu só lamento, ranchito,
teres dois olhos benditos…
…não janelas bem postadas.

Outros cuidarão, calados,
duvidando o teu “olvido”.
Já não tens jardins floridos,
somente espinhos de dor.
Mas meu sonho cruzador,
por algo, te avista inteiro;
Mesmo sendo prisioneiro
do perfume de outra flor.

Tu, que és ranchito, devias
ser apenas moradia;
Uma ausência diante aos dias…
…lembrança que vem e vai.
E não rebrotar jamais
tuas antigas primaveras,
onde então, eu sou tapera
na ilusão do nunca mais.

Quantas vezes já fui tropa
cruzando no teu sombreado!

Andejo sonho criado
que condenou-me à distância;
E à repartir esta ânsia
que batiza o teu final
como simples memorial
dos fundões de alguma estância.

Guardaste por sobre a quincha,
luas cheias, de saudade.
Que, agora, apenas metades
toldam o céu dos amantes.
Já somos partes distantes
destas luas, destes ventos.

Nosso escasso sentimento
se iguala ao quarto-minguante.

Tu trazes marcas, memórias…
…gravadas para o eterno.
Que nem outonos e invernos
hão de borrar, pela sina.
Tal fossem matéria-prima
que o idioma da vivência
teima chamar de querência…
…teima conservar genuína.

Atemporal resistência
disfarça a conta da idade!
…Tu és rancho por metade;
Eu, andante passageiro.
Teimando ver-te, ligeiro,
entre a penumbra da noite
que agora te entrega açoites,
não mais um céu estreleiro.

Eu só lamento, ranchito,
teres dois olhos benditos,
onde percebo, depois:

…Que não mais seremos dois;
Tu, morada. Eu, sou distância.
Nesta tremenda inconstância
que a vida guarda pra os seus.

Pois, teu silêncio escondeu
além da quincha, ranchito,
este par de olhos benditos…
…outrora, gêmeos dos meus!

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