Últimos Carreteiros – Patrocínio Vaz Ávila


Sesmaria da Poesia Gaúcha – 10ª Quadra – Osório – RS – 2005.

ÚLTIMOS CARRETEIROS

Letra: Carlos Omar Villela Gomes
Intérprete: Patrocínio Vaz Ávila
Amadrinhador: Geraldo Trindade

Não sou as rugas e os cortes
Que a vida marca em meu couro…
Sou bem mais que algum lamento
À beira deste fogão.
Meu olhar revoa ao longe,
Muito além dessa fumaça…
Além da nuvem que passa
No ventre da imensidão.

Meus anseios vêm de longe,
De muito além desta era…
São juntas de bois brasinos
Cruzando tempos e estradas.
Os sonhos são santa-fé
Quinchando carretas velhas,
Que povoam meus silêncios
E o fundo dessas volteadas.

São tantos eixos rangendo,
São tantas rodas girando…
E a sina de carreteiro
Vai repetindo:-Até quando?
São tantos, tantos caminhos
Plenos de pó e atoleiros
E um manto de soledades
Mais largo que o pampa inteiro.

O pampa é um céu pra quem sonha
Nas asas de uma carreta…

Miro na volta de manso…
Outras almas também sonham
O mesmo sonho que eu;
Esteios de um tempo velho
Em cada olhar resistente,
Pechando a vida de frente
Sem qualquer sombra de adeus.

O fogo busca os silêncios mais fundos
Que nossas almas remoem inquietas…
E faz dos olhos porteiras abertas
Pra os nossos sonhos ganharem o mundo.

E cada rosto se faz um espelho
Onde as lembranças, a pouco caladas,
Trazem um tempo repleto de estrelas
E uma carreta de luz por sinuelo.

O fogo faz que devora
Mas na verdade acarinha…
Há um ranger que vem de longe
Alimentando o rodar
Do eterno ciclo da vida.

Quem sabe o mundo girando
Seja apenas uma roda
Da carreta mais bonita
Que Deus Pai idealizou.

A vida passa e repassa,
O mundo segue girando,
A inquietude picaneando
E a sina de carreteiro
Ainda repete:-Até quando?

Até quando Deus quiser
E Deus sempre há de querer…
Não me falem de passado
Quando eu falo do presente…
Do meu sangue, da minha gente,
Da minha noção de alma.

Sou filho de carreteiro
Meus companheiros também…
E não me venham, doutores,
Com patacas e motores
Que de estradas e de amores
Nós sabemos muito bem.

Talvez não sejamos fortes
Os verdadeiros heróis…
Mas o que somos e amamos
Nem mesmo o tempo destrói.

O mundo corre, se apressa…
Nós seguimos devegar;
E assim enxergamos coisas
Que muitos, sempre correndo,
Não tem tempo de cuidar.

Como a vida é mais bonita
Pra quem sabe perceber
A beleza que há na vida!

Os resmungos da carreta
Talvez sejam meus também…
Eles nos contam segredos
A cada nova jornada.
Pra que pressa? Temos tempo…
Todo o tempo da existência…
Os bois seguem no compasso
Que marca o meu coração.

Meu pensamento se eleva…
Procura os olhos de Deus.
Vertendo luz entre as trevas;
Toda essa luz que conserva
Tão viva a nossa missão…

Minha carreta é meu templo
E a estrada, minha oração!

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