Passando o Laço – Marcelo Oliveira


1º Laçador do Canto Nativo – Porto Alegre – 2006.

PASSANDO O LAÇO

Letra: Mauro Moraes
Música: Mauro Moraes
Intérprete: Marcelo Oliveira

Eu quando proseio comigo
Encontro um amigo
De alma, querência
De mate e galpão…

E, às vezes, olhando as pessoas
As poucas e boas
Compreendo a que venho
Tocando violão…

A estância pra mim é o reduto
Onde faço meu mundo
Compondo, de tudo, em cima do arreio…

Aliás, é onde o meu tempo
Campeia o que penso
Parando rodeio no campo do meio!

É onde se tem tão somente
Uma volta sem ida…
E um verso cheirando a mangueira
Depois da lida…

Eu ando sempre em campanha
Onde a vista é tamanha
E quem me acompanha
Anda pelas caronas
De charla, cordeona, cambona e chibo…

E, às vezes, de poncho quebrado
Tropeando gado, escrevo a cavalo
Armando um pealo,
Com a bota presa no estribo…

É onde se rasga uma armada
Num marca borrada criado veiaco.
E a alma procura a volta
Passando o laço!

O Cerne do Rincão dos Valos – Marcio Nunes Corrêa e Fabiano Bacchieri


14º Terra e Cor da Canção Nativa – Pedro Osório – RS – 2002.
Composição que conquistou o Segundo Lugar.

O CERNE DO RINCÃO DOS VALOS

Letra: Marcio Nunes Corrêa
Música: Fabiano Bacchieri
Intérpretes: Marcio Nunes Corrêa e Fabiano Bacchieri

“Inda antes me ocorreu compor um mate dos gordos,
destes que lembram apojos quando amanhece a pampa.
…enquanto batia água no espelho claro da várzea
me deu uma nostalgia e uma cosca na garganta,
por isso fiz estes versos de quem a pouco clareia
mesclando gaita e guitarra num canto a Dom Pedro Corrêa.”

Vem do Rio Grande antigo esta estampa que relato
que mais parece um retrato do sul montado à cavalo.
Campeiro de toda lida, campo e crina no tutano,
este taura soberano cria do Rincão dos Valos.

Fez um tempo nos arreios escrevendo a sua história
a risco e talho de espora no pêlo de um desbocado.
Tinha na mão o tenteio da hora de enfrenar
e adoçar queixo encruado de bagual mau começado.

Se lhe tocasse um zebu disparador e matreiro,
destes que cortam canhadas abaralhando o espinhaço,
– encostelava ligeiro e só se ouvia o tropel
de pulso, mango e fiel floreando o maula a laçasso.

Quando a canhota estendia na extensão de um quatro tentos
num sobre-lombo ou de corte, nunca foi de errar armada.
Num aparte de mangueira, terneiro que desse volta
tirava a bico de bota, a grito, encontro e trompada.

Por tudo agora entendo e os outros entenderão
porquê eu firmo o garrão pra cantar a nossa gente,
é que tenho minha alma palanqueada neste cerne
que é um manancial de querência e um motivo permanente…

Mas saibas Dom Pedro velho que a tua raça seguirá
no sangue de algum gaúcho com raiz no pastoreio,
que cruzar enforquilhado fachudo no corredor
sujeitando uma rosilha bem posturada de freio.

Na Paz do Cinamomo – Leonardo Paim


4º Canto Sem Fronteira – Bagé – RS – 2006.

NA PAZ DO CINAMOMO

Letra: Hilo Paim
Música: Tuny Brum
Intérprete: Leonardo Paim

A sombra copada do meu cinamomo
espichou a prosa pra um final de tarde,
buscou lembranças no bojo da alma
pra cevar, com jeito, as minhas saudades.

Parou rodeio na invernada do tempo,
trazendo pra perto o que a vida cuidou;
a calma figura se achegou de manso…
Quem mateou, primeiro, foi o meu avô.

De gestos simples e poucas palavras
mostou o rumo nos ensinamentos.
Alma de campo e olhar de horizonte,
deixando pro neto o melhor sentimento.

O vento que sopra na paz desta sombra
reponta do campo a inspiração,
mangueando pras casas a força de um templo
com cheiro de pasto, mangueira e galpão.

O braseiro antigo pelas madrugadas,
cepo com pelego, mate bem cevado;
as labaredas brilhando em seus olhos
e nas sábias mãos histórias do passado…

A tarde recebe o silêncio da noite,
embretando um mundo que me visito;
pra os mates que sorvo no abraço da sombra
conservarem na essência a saudade do avô.

Manuscrito – Kiko Goulart e Rafael Machado


1º Canto do Barreiro – Urupema – SC – 2017.

MANUSCRITO

Letra: Rafael Machado
Melodia: Roberto Borges
Intérprete: Kiko Goulart e Rafael Machado

Amontoado bendito
de moradia e encerras…
Quem te escreveu sobre a terra
em forma de um manuscrito
fez um poema bonito
com boa rima e ternura;
fascina pela estrutura,
pelo cuidado ao tratar…
Prende os olhos, rouba o ar
desde a primeira leitura!

À tua volta nos caminhos,
antes tempo corredores,
caem folhas, brotam flores,
erguem-se teias e ninhos…
Grilos sapos, passarinhos…
Todos cantam, ninguém chora!
Só a gente que não mora
nas tuas proximidades
lamenta barbaridade
por precisar vir embora.

Eu, cada vez, creio menos
nesse eito de conversa
sobre vidas depois dessa,
justamente, que vivemos,
mas se existe um ser supremo
– talvez bruxo ou feiticeiro –
repensando paradeiros
que já esteja consciente:
– Se é pra voltar novamente
que seja então pro Barreiro!

Depois pra uma terceira
viage – oportunidade –
volto matar a saudade
da mi’a querência primeira…
Cinamomos e figueiras,
banho de rio… Santo Deus!
Que um sujeito que nem eu,
ainda que ressuscite,
não é feliz – acredite –
longe do chão que nasceu!

Léguas de Solidão – Grupo Horizonte


1ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 1981.
Composição premiada com o Primeiro Lugar.

LÉGUAS DE SOLIDÃO

Letra: Humberto Gabbi Zanatta
Música: Luiz Carlos Borges
Intérpretes: Grupo Horizonte

De andanças, por caminhos,
Fez sua vida, carreteando,
O próprio destino de peão.
Cruzou sanga, cruzou barro,
Pedra e pó, encurtando
Distâncias, ganhou o pão.

Traçando estradas nos atalhos primitivos,
No horizonte do bem longe, andejou…
Como cobra, se estendendo nas coxilhas,
Novas querências o seu rastro demarcou.

Transportou, com segurança, os mantimentos
Para o comércio dos bolichos nas estradas.
Carreteou cargas de lã, de sal e charque,
E a própria história no ajoujo da boiada.

Nas pousadas foi plantando
Vilarejos no ofício
Da campeira geografia.
Pelo pago, teve amores
Que marcaram, qual o canto
Da carreta que rangia.

Rasgou o pampa em léguas de solidão
E da carreta fez trincheira e fez morada.
Fez da lua, do cachorro e dos avios,
Companheiros incansáveis das jornadas.

No roda-roda do tempo vão sumindo
A junta mansa e a carreta – velhos trastes,
Porém, a fibra do remoto carreteiro
Não há tempo ou pedregulho que desgaste.

Gibeira da Alma – Eraci Rocha e Grupo Canto Piá


8ª Tertúlia Musical Nativista – Santa Maria – RS – 1987.
Composição premiada pelo Melhor Arranjo (Doli Carlos Costa).

GIBEIRA DA ALMA

Letra: Antonio Carlos Machado
Música: Milton Magalhães “Tinho”
Intérpretes Eraci Rocha e Grupo Canto Piá

Escondi bem escondida
na gibeira da minha alma,
uma saudade teimosa
que me dói no coração
nas dobras do pensamento,
enrodilhada e matreira,
abusa do sentimento,
me desperta da ilusão.

Solito estou e aqui fico
emangueirado em silêncio.
Saudade prendo no brete,
me largo a trote no flete,
no rumo da imensidão.
Recolho o tempo passado,
emalo o poncho molhado
do choro do coração.

Do mata-olho a fumaça
lhe desenha o corpo lindo,
e o seio cuia de mate
que sorvia com paixão
realça na blusa branca,
num ponto negro tentando,
enquanto eu vou sonhando
na beira da solidão.

Flor Del Pago – Matheus Leal


1º Flete da Canção Gaúcha – Santa Margarida do Sul – RS – 2007.
Composição que recebeu os prêmios de Primeiro Lugar, Melhor Poesia e o trofeu de Melhor Intérprete foi para o Matheus Leal.

FLOR DEL PAGO

Letra: Cláudio Silveira
Música: Juliano Moreno
Intérprete: Matheus Leal

Por conta destas andanças
Que te conheci, trigueira
Num entre choque de danças
No “pueblero” em “La calera”

Com ânsias arrinconadas
E um olhar misto perdido
Envolta em chita bordada
Lembrando campos floridos

Brilho arrendado da lua
Tinha em teus olhos morenos
Tal se tua alma charrua
Quizesse dar-me um aceno

Um trino de uma guitarra
Um pensamento ainda vago
Uma lembrança, qual garra
Encilhando um gosto amargo

Posteiro desses recuerdos
Hoje é o ofício que trago
Pra cantar sempre saudades
Não te “olvidar” Flor del pago

Não sei porque te busquei
Na noite dos teus cabelos
Talvez porque muito andei
Com ilusões por sinuelo

Quem sabe porque preciso
De alento pra o coração
Ou porque achei em teu riso
A luz pra minha solidão

Curto estes recuerdos vagos
E os sonhos de te rever
E te plantar, “Flor del pago”
No jardim do meu viver.