João Cruzeira – Elton Saldanha


1ª Reculuta da Canção Crioula – RS – 1982.
Composição premiada como Música Mais Popular.

JOÃO CRUZEIRA

Letra: José Hilário Retamozzo
Música Elton Saldanha
Intérprete: Elton Saldanha

Mas oigaletê gaita feia,
Parece até uma cruzeira
Passa o João a noite inteira
Grudado a puxar o fóle
Oigaletê como bole
Da tarde ao clarão do dia
Sacramentando harmonias
Pra dançar de corpo mole

E a gaita que nem cruzeira
Dando bote a noite inteira
Amoitada na vaneira
No meio da polvadera

Mas oigaletê que se encolhe,
Fala, resmunga, cochicha
Dá bote no ar se espicha
Venenosa que nem cobra
Pinguancha nenhuma sobra
Quando toca o João cruzeira
E a indiada levanta poeira
Enquanto o som se desdobra

E a gaita que nem cruzeira…

Na porta dum quarto
As velhas com olhares vigilantes
Rondam os pares dançantes
Disciplinando o decoro
E às vezes um desaforo
Pode virar desatino
Em outras muntam o teatino
Que tenteia avançar namoro

E a gaita que nem cruzeira…

Mas oigaletê como toca
E desentoca esse taita
que puxa da alma da gaita
Xote, bugio à vanera
Valsa, milonga e rancheira
E até polca paraguaia
Pras moça arrodeá a saia
E os hóme erguer polvadeira

E a gaita que nem cruzeira…

Infância – Ita Cunha


19ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2011.
Composição premiada com o prêmio de Melhor Tema Sobre a Região Serrana.

INFÂNCIA

Letra: Emerson Fernandes e Rafael Xavier
Musica: Matheus Alves
Intérprete: Ita Cunha

Na quinta trova dum galo guela de aço
Fim da madrugada e um novo dia aponta
Saltando o catre, um gurizito se apronta
E se disperta em alerta com a cavalhada.

Garrão rachado, tamanca quebrando a geada
Aquenta “os pé” no esterco morno das tambeiras
Café de apojo e leva “os tarro” da mangueira
Limpa o chiqueiro e já raciona o bicharedo.

E “folgueando” as tarefas na sombra de uma figueira
O piá retoça fazendo o que gosta em suas invernadas
Com gado de osso, sonha em ser moço… Andar nas tropeadas…
Curar um terneiro… Trompar um matreiro, levando à mangueira!

No brete de estaca, pialando vaca, na marcação
Fingindo – paxola – escorar o tirão no tirador
Sonhando muntar e lhe atacar, fazendo fiador
O zebu caborteiro que se atira no arame e dispara.

Caçando lagarto enquanto os “véio” sesteiam
Bodoque na mão, campeia o bicho escondido
Quando crescer saberá entender vendo seu filho
Fazer o que ele faz, na infância de um guri.

Horizontes de Santa Fé – Joca Martins


12º Carijo da Canção Gaúcha – Palmeira das Missões – RS – 1997*

HORIZONTES DE SANTA FÉ

Letra: Edilson Villagran
Música: Luis Cardoso
Intérprete: Joca Martins

Ah, que vontade que eu tenho
De andejar pelos caminhos,
Empoeirado de esperança,
Paz, amor, fé e carinho,
Porque já venho cansado
De fazer verão sozinho.

Vi coisas pelas estradas
Que a maioria não viu…
Ter, valer, mais que o ser
E muitos ranchos vazios.
Também, nos braços da aurora,
O sol tremendo de frio.

Espero encontrar ecos
Pra os sentimentos latentes,
Porque parece mentira
E é uma verdade patente:
A gente nunca se esquece
De quem se esquece da gente!

Já me negaram pousada
Sem ao menos ver quem era…
Por essas, busco horizontes
Com ares de primavera
Para amanhã, ou depois,
Não ter a alma tapera.

Ergui um rancho de sonhos
Nestes recentes caminhos,
Pra vivenciar esperanças,
Amor, confiança e carinho…
Coberto de santa fé
E arrodeado de vizinhos.

Gana Missioneira – Valdomiro Maicá


2º Chimarrão da Canção Missioneira – Coronel Bicaco – RS – 1984.
Composição que conquistou o Segundo Lugar.

GANA MISSIONEIRA

Letra: Nilo Bairros de Brum
Música: Valdomiro Maicá e Cenair Maicá
Intérprete: Cenair Maicá

Esta gana missioneira que carrego inteira, dentro do meu peito,
Me faz caudatário de um rio que volta para o velho leito.
O mate que cevo pra sorver solito quando o sol se vai…
É a seiva bugra da terra vermelha do Alto Uruguai.

Eu sou missioneiro, nasci para a liberdade,
Mas aqui finquei meu rancho pra nunca mais ter saudade…
Sou herdeiro de Sepé, retemperado na guerra,
Se preciso, tranco o pé pra defender minha terra.

Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais…
Hay os que se encontram por voltar as fontes de seus ancestrais.
As encruzilhadas parecem caminhos a se afastar
Quando na verdade são pontos de encontro pra quem quer voltar.

Eu sou missioneiro, sei de bailes e potreadas,
Também sei de mutirões no cabo liso da enxada…
Por saber tudo o que sei, me sinto bem a vontade,
Sempre pronto a defender terra, honra e liberdade.

Feito o Carreto – Pirisca Grecco


31ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 2002.
Composição que conquistou a Calhandra de Ouro e Melhor Canção Inédita.

FEITO O CARRETO

Letra: Mauro Moraes
Música: Mauro Moraes
Intérprete: Pirisca Grecco

Meu compadre, toca
Essa milonga nova, feito “nego véio”,
Meu compadre, trova
Que o dedo de prosa anda mixuruca,
Meu compadre, abraços,
Tocando pro gasto tá feito o carreto,
Não tô nem aí!
Não sou de me exibir, eu sou de Uruguaiana!

Meu compadre, volta
Que a Santana velha ainda te espera,
Meu compadre, estive
Em Passos de Los Libres “chibiando” um pouco,
E me fiz de louco,
Pra “juntá uns troco” e passar na Aduana,
Mortadela, queijo, azeite, “papa-doce”. Uns sacos de farinha…

Meu compadre, eu posso,
Milongueando uns troço, te alcançar um mate,
Nosso buenas tarde,
Teve o mesmo pátio, a mesma cidade,
Somos companheiros, somos milongueiros, somos regionais!
Somos que nem peste,
Da Fronteira Oeste, como nossos pais!

…E não há mal que sempre dure!
…E não há bem que nunca acabe!

“Ah! Seu tocador de rádio, eu queria tanto
mandar este recado para o meu compadre
que está aquerenciado na alma do meu violão!”

Eis Me Aqui – Talo Pereyra


36ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 2016.
Composição premiada com o Segundo Lugar, Mehor Letra e Melhor Intérprete.

EIS ME AQUI

Letra: Robson Barenho
Música: Talo Pereyra
Intérprete: Talo Pereyra

Eis me aqui músculos, nervos
e mais de duzentos ossos
sem causa para remorso
sem obra de algum relevo
pés de valsae olhos negros
língua afiada, lábios grossos
braços de afeto e esforços
asco e ódio ao cativeiro
vinte e oito dentes inteiros
e ociosos se não almoço.

Eis me aqui boca e orelhas
pulmão ferido a fumaça
duas cordas vocais falsas
e mais duas verdadeiras
voz rouca de orvalho e poeira
tempo, sol, farras, arruaças
protestos contra as mordaças
murmúrios as companheiras.

Eis me carinho e escarro
sem cetro, coroa ou trono
alheio a santo ou demônio
de pedra, pau, gesso, barro
quem sabe insano e bizarro
de tanto que me apaixono
coração em pandemônio
bafo de vinho e cigarro

Vim, passaporte sem vistos
asas aos ventos gerais
alamedas, lamaçais
roseiras, ipês, granito,
bordéis, palácios, presídios,
salões, veredas, currais,
gentes, coisas, animais,
histórias, fábulas, mitos

Eis me aqui, depois de muitos
entre muitos e antes dos outros
não me serve de conforto
que ao céu vão os bons e os justos
sob escárnio dos corruptos
agonizo junto aos probos;
sei: o sol nasceu pra todos
mas serve aos reis mais que aos súditos
e nunca foram os últimos
os donos de terra e de ouro.

Bailanta do Quirino – Piazitos do Fandango


Querência do Bugio – 5º Aparte – São Francisco de Assis – RS – 1997.
Composição premiada como Música Mais Popular.

BAILANTA DO QUIRINO

Letra: João Ari Ferreira
Melodia: Neiderlan Padilha
Intérpretes: Piazitos do Fandango

Fim de semana, deixo n’água a morrinha,
Mudo as baixeiras e me largo pra um bolicho.
Deu pelo rádio tem bailanta no Quirino
Baile dos Buenos pra “campeá” algum Cambicho.

A vizinhança não comenta outro assunto
Até o Gerunto deu uma afiada no facão
Pra evitar que alguém mal aprecatado
Vá desarmado pro meio do salão

Que baile bueno esses bailes do Quirino
Prá se “dançá” entreverado co’a fumaça
Dar um “rechego” no balcão a cada marca
Matando a sede num martelo de cachaça

E o bate-coxa no salão de chão batido
Fervia mais que tachada de chimia
Nessa bailanta cara cheia é documento
E argumento pra algum fora de guria.

De hora em hora um pandeiro mal surrado
Dava um costado pra o gaiteiro descansar
E o macherio num porre osco junto a copa
Já se aprumava pra uma rusga no final.

Vaneirão da Mal Costeada – Adriano Posai e Alexandre Ramos


5ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages SC – 2005.
Melhor Tema Campeiro dessa edição da Sapecada.

VANERÃO DA MAL COSTEADA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran
Intérprete: Adriano Posai e Alexandre da Silva

No chamarreio da “bandona” mal costeada,
Peço a bolada da mais “veiaca” do lote.
Se a mim me toca, que o resto se “leve a bréca”,
Depois que seca o primeiro suor do trote.

Quebro na testa meu sombreiro de aba larga,
Arrasto a carga bem pra o meio do salão,
Levo ‘os encontro’, ali, num grito de “solta”,
Buscando a volta deste baita vanerão!

Ali o Medeiros, que da farra é testemunho,
Afirma “os punho nas costela” do “bandoneo”…
E a mal costeada diz que um eito é muito pouco,
E que eu sou louco, e tenho parte com o demônio!

Levo na cincha esta madtreira que se joga,
Coiceando a soga que castiga na virilha…
Procuro ‘as unha’ e deixo, no más, que se torça,
Pois faço força é bem o meio da forquilha.

Eu sou crioulo do “Passo do Reculuta”
E lida bruta não me assusta neste embalo,
Já “relampiado e com o zóio” virado em brasa,
Se derem vaza, eu entro e danço de a cavalo!

Um Certo Galpão de Pedra – Raineri Spohr e André Teixeira


16ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2008.
Composição que conquistou os prêmios de Primeiro Lugar, Melhor Melodia e Melhor Arranjo.

UM CERTO GALPÃO DE PEDRA

Letra: Xirú Antunes
Música: André Teixeira
Intérpretes: Raineri Spohr e André Teixeira

Cantigas de ronda antiga
Que há tempos não via mais
Querência, galpão de pedra
Fogão dos meus ancestrais

Destapa um sonho cautivo
Chuvita mansa e dolente
Que as vezes se para quieta
Só pra escutar minha gente

Madrugada se boleando
No coração cantador
Outras almas vão costeando
As brasas do parador

Cantiga que ronda
Pela pedra, pela brasa
Pela terra que moldou
O perfil de cada alma

O galpão reafirma o tempo
Templado pelos avós
Voz de vento, voz de tempo
Eterno que somos nós

Por fora é noite “muy” negra
Por dentro baeta vermelha
Mal comparando é um poncho
Sem o salpico de estrelas

E segue cantando minha gente
Serenateando “no más”
Um dia serão as pedras
Que habitam este lugar.

Tapera – Marcelo Oliveira


32º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 2016.

TAPERA

Letra: Edilberto Teixeira (in memorian)
Música: Lucio Yanel
Intérprete: Marcelo Oliveira

Estás vendo lá no alto
Aquela ponta de gado?
E, mais perto do alambrado,
Que vai costeando a vertente,
Aquele rancho sem gente,
Sem janela esburacado?

… Que de silêncio ele tem!
Que de tristeza se acampa
Ao seu redor, que se estampa
A piedade num grito…
– Pois, coitado, está solito
Na imensidão deste pampa.

Está triste, tão sozinho,
Parece beijando o chão.
Tem, por sorte, a proteção
Daquela acácia galhuda
Que o resguarda e que o ajuda
A agüentar a solidão.

Quem passa por longe, pensa,
Vendo o rancho teatino,
Na amargura do destino
De quem vive abandonado
Pois, parece que ajoelhado,
Reza aos céus num desatino.

Parece que está chorando
Lá no altar do coxilhão
Na mais devota oração,
Entre lágrimas banhado
Pedindo, a Deus, que o passado
Volte outra vez para o rincão.

Não sei poque penso nisso
Toda vez que o sol vai indo
Lá no cerro se sumindo…
– Meu coração fica triste,
E essa tristeza que assiste
É a morte de um sonho lindo.

E eu digo mais, meu patrício,
Aquele rancho sombrio,
Igual a mim já sorriu…
Mas, com ele, eu choro agora,
Minha ilusão foi-se embora,
Deixou-me só e fugiu.

Meu coração não tem nada
E outro amor não mais espera,
Sem saudade, sem quimera,
Sem amor, sem alegria…
A minha alma está vazia,
O meu peito é uma tapera.