Relato de Don Ramos – Alexandre Ramos


17ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2017.

RELATO DE DON RAMOS

Letra: Alexandre Ramos
Melodia: Alexandre Ramos
Intérprete: Alexandre Ramos

Encilhei o baio oveiro
Que há tempos andava solto,
Bem mansarrao desde potro…
Pingo da minha confiança.
Precisando estender a trança
E escorar algum toruno
Era só quadrar o corpo,
Deixava correr bem solto,
Se via o golpe no fundo.

A Campereada era curta,
Como dessas de ir na venda,
Dessa vez sem encomenda,
Encilhei do jeito antigo.
O coxonilho estendido,
Sobre o arreio chapeado,
O pingo de pouca cerda,
E eu lembrando o tempo moço,
De sombreiro bem tapeado

Foi quando alcei a perna
E me sentei nos arreios,
O meu baio sem floreio,
Numa escaramuça por fula…
Num tempo seco sem chuva
Se boleou de todo corpo,
Me apertou como uma uva,
Fiquei mal acomodado,
Me caiu por cima o potro.

E neste golpe da vida,
Senti que o tempo passou,
Sei que guri já não sou…
Como já fui outrora
“corpo de gato” agora
Não é qualidade minha,
Só restam boas memórias,
Quando “pisava na oreia”
Pela destreza que tinha.

Fiquei no fio da adaga,
Num faz que vai mas não vai,
Mas me apeguei com Deus Pai,
Naquele momento insano.
Me visitaram Caetano,
Cabeleira e Teixeirinha,
Toda manhã declamando,
Pra todos verso falando,
De dentro da enfermaria.

Quis o Patrão do céu
Que eu não deixasse esse plano,
Por ser homem de tutano,
Também de bom coração.
Deixei falar a razão,
Para contar essa história,
Já estando quase “são”,
Voltei mais gaúcho ainda,
Bombacha, adaga e espora.

E foi assim desse jeito
Que o fato “assucedeu”,
O pingo não teve culpa, nem eu,
Por todo o acontecido.
Já estou fortalecido,
Não me entrego por tão pouco,
Nem adianta se queixar,
Resolvi me levantar,
Porque o fraco nasce morto!

Quem Traz No Olhar Uma Saudade – Rui Carlos Ávila


8ª Ramada da Canção Nativa – Encruzilhada do Sul – RS – 2004.
Composição premiada com o Primeiro Lugar.

QUEM TRAZ NO OLHAR UMA SAUDADE

Letra: Martim Cesar
Melodia: Rui Carlos Ávila e Roberto Luzardo
Intérprete: Rui Carlos Ávila

Andei rondando em largas madrugadas
De aguadas sem estrelas refletidas
Deixando no chão branco das geadas
Pegadas na distância já esquecidas

Cruzei pelas léguas do meu tempo
Sem tempo para o florir das primaveras
Ouvindo a cantiga que há no vento
Dizendo que eu – por só – me fiz tapera

Quem traz no olhar uma saudade
Ponteando o inverno sobre as casas
Vê apagar-se o sol das tardes
Tentando, em vão, soprar as brasas

Quem viu ao longe a mocidade
Sumir nas curvas do caminho
Deixou morrer a flor da idade
E sem um querer… ficou sozinho.

Perdido nas lonjuras das estradas
Trilhadas pelas horas mal dormidas
Aprendi que toda a vida é quase nada
Se a alma está em pedaços repartida

No amargo onde tropeio sentimentos
Por momentos o coração sonha quimeras
Eu esqueço a solidão que tenho dentro
E invento alguma flor à minha espera

Pega Pra Capá – Cristiano Quevedo


4º Cante Uma Canção em Vacaria – Vacaria – RS – 2004.

PEGA PRA “CAPÁ”

Letra: Mauro Moraes
Música: Mauro Moraes
Falado: Anomar Danúbio Vieira
Intérprete: Cristiano Quevedo

Tiradeira, rédea, bocal,
Cabresto, maneador e sovéu
São cordas que me sustentam,
De barbicacho e chapéu!
Sogueiro, coludo, gavião,
Cabano, bocudo e bagual
São pingos da minha balda
Que, às vezes, cago de pau!

Maturrango, barba de pelego,
Bochincheiro, mambira e pachola
Eu faço “garrá” valor
“Nos ferro das minhas espora”!

Tem cada tipinho metido à “calavera”,
Mais perdido que cebola em salada de fruta!
Enquanto eu pego pra “capá”
Com uns “loco” pela volta…
A gauchada fica que nem água de poço:
Só esperando o estouro do balde!

Bugrada buenassa, grongueira,
Gaúcha dos quatro costados
São crias da mesma cepa,
Rengueando do mesmo lado!
Chibeiro, fronteiro, “paysano”
Guapos de alma e peleia
São todos lindeiros de campo
No “leva e traz” da fronteira…

No fundo d’uma invernada,
Metido no mato sem cachorro,
A coisa anda mais apertada
Que boi em tropa de touro!

O “tróxo” anda pior que tatu em campo seco…
Com a “pelega” mais curta que estibo de anão, chê!…

Violão, gaita, pandeiro,
Fandango tasca e galpão
É tudo pra um índio campeiro
Nunca “froxá” o garrão!
Xerga, carona, lombilho,
Freio, pelego e badana
Arreios de lida e serviço
Que, ainda, servem de cama…

Pilchado pra tal dominguiera,
Me agrada “botá” na mesa
Pra qualquer copla de campo
Com o pingo sonando “nas venta”!

Bueno, eu vou “abrindo os dedo”… “deitando o cabelo”,
“Picando a mula”, “capando o gato”!…
Que eu já “tô” mais faceiro que mosca em tampa de xarope!
Porque em matéria de “muié” bonita eu sou que nem alpargata:
Sirvo tanto pra um pé como pro outro…
E segue o baile, gauchada!!!

O João e a Rita – Cristiano Fantinel


18ª Tertúlia Musical Nativista – Santa Maria – RS – 2010.

O JOÃO E A RITA

Letra: Marquito Ferreira Costa e Túlio Urach
Música: Marquito Ferreira Costa, Túlio Urach e Cristiano Fantinel
Intérprete: Cristiano Fantinel

João de Barro era viúvo,
Caturrita era solteira…
Numa tarde se encontraram
Nos galhos da corticeira.

Ele disse: Sou pedreiro,
Engenheiro e arquiteto,
Viúvo e, faz algum tempo,
Ando precisando afeto.

Ninguém aturava a Rita,
Porque muito tagarela,
Mas o João ouvia pouco
E se apaixonou por ela…

Apesar das diferenças,
Foi mais forte o coração,
E juntaram suas penas
Pra acabar com a solidão.

Foi um casório bonito,
Veio toda a vizinhança;
O canário e o periquito
Animaram a festança.

Ela toda de esperança
E ‘os cunhado’ de-lhe grito!
Se trocaram ‘as aliança’
Lá no alto do ‘galhito’.

De gravetos e lã crua
Era a antiga morada
Que ele reformou inteira
Com o barro da chuvarada.

Rita disse aos quatro ventos
Do talento de João,
Ele agarrou empreitada
Em todo canto do rincão.

Fez açougue pro Carancho,
Hotel pra um bando de Anú
E até capela velatória
Pra família do Urubu.

João e Rita têm o rancho
Mais lindo do corredor,
Numa forquilha que junta
Dois galhos de um grande amor.

Não Podemo Se Entregá Pros Home – Leopoldo Rassier e Os Tiarajús


12ª Califórnia da Canção Nativa do RS – Uruguaiana – RS – 1982.
Composição que conquistou o prêmio de Música Mais Popular.

Letra: Humberto Zanatta
Música: Francisco Alves e Francisco Scherer
Intérpretes: Leopoldo Rassier e Os Tiarajús

O gaúcho desde piá vai aprendendo
A ser valente, não ter medo, ter coragem.
Em manotaços do tempo e em bochinchos
Retempera e moldura sua imagem.

Não podemo se entregá pros home
De jeito nenhum, amigo e companheiro.
Não tá morto quem luta, quem peleia.
Pois lutar é a marca do campeiro.

Com lança, cavalo e no peitaço.
Foi implantada a fronteira deste chão
Toscas cruzes solitárias nas coxilhas
A reelembrar a valentia de tanto irmão.

E apesar dos bons cavalos e dos arreios
De façanhas, garruchas, carreiradas
A lo largo o tempo foi passando
Plantando novo rumo em suas pousadas.

Vieram cercas, porteiras, aramados
Veio o trator com seu ronco matraqueiro
E no tranco sem fim da evolução
Transformou a paisagem dos potreiros.

E ao contemplar o agora de seus campos
O lugar onde seu porte ainda fulgura
O velho taura dá de rédeas no seu eu
E esporeia o futuro com bravura.