Inhandejú – Kiko Goulart


33ª Gauderiada da Canção Gaúcha – Rosário do Sul – RS – 2015.
Composição que conquistou o prêmio de Segundo Lugar e Melhor Conjunto Instrumental.

INHANDEJÚ

Letra: Rafael Machado
Melodia: Kiko Goulart
Interpretação: Kiko Goulart

Encilhei pra “cantá” uns verso
Na costa do Inhandeju
Rincão miúdo – universo
Gigante pra este chiru.

Pedra do campo que rola
Por tudo que é pago alheio
Mas que apenas se consola
Voltando ao chão de onde veio.

Saí daqui muito novo
para buscar – quem diria –
Elementos que meu povo
Tinha de sobra e eu não via.

Assim mesmo cinamomos
Antigos que o tempo ergueu
Pareciam não sei como
Saber de mim mais que eu.

Quando a pisada comprida
Daquel pingo bico branco
Trocou a estrada batida
Pelo gramal dos descampos.

Flores muito parecidas
Co’as qu’eu pisei indo embora
Murmuravam boas vindas
Alma adentro, campo a fora.

Apeei pra cantá uns verso
Na costa do Inhandeju
Rincão miúdo – universo
Gigante pra este chiru.

Pedra de formato feio
Que depois de andar cruzando…
Que depois de andar rolando
Regressa ao chão de onde veio!

Inhandejú, Inhandejú
Nas tuas veias de rio
Corre meu sangue chirú…

Auroma de folha seca,
Pitanga e guabijú.

Hortência, Serra e Cor – Edson Otto e Grupo Rodeio


6º Ronco do Bugio – São Francisco de Paula – RS – 1991.*

HORTÊNCIA, SERRA E COR

Letra: Alvandy Rodrigues
Melodia: Régis Marques
Intérpretes: Edson Otto e Grupo Rodeio

Gaita ponto na sacola
Tropeando entre as hortências,
Trago meu verso pachola
A gente desta querência.

Há muita flor nos caminhos,
E nos ranchos deste chão,
Coloreando a própria alma
Das prendas do meu rincão.

As hortências, cá na serra,
Alambrando corredores…
Ao chegar da primavera
Trazem a vida nas cores.

Este é o chão do campeiro:
Rodeio, gaita e bugio!
Neve caindo na serra,
Abençoando o frio.

Pois quem nasceu aragano,
Este não cai em mundéu…
São Francisco é o Rio Grande
Muito mais perto do céu.

Garoa Galopeada – César Oliveira


12ª Estância da Canção Gaúcha – Estância das Estâncias – São Gabriel – RS – 2004.*

GAROA GALOPEADA

Letra: Edilberto Teixeira
Música: César Oliveira
Intérprete: César Oliveira

O posteiro remediado,
Que virou gente da casa,
Ouve a chuva e bate a brasa
Do tição quase apagado.

Sua casinha de tijolo,
Que tem zinco no telhado,
É um cantinho sossegado
E um modesto lar crioulo.

Quando o vento faz rumor
E a garoa galopeia,
Sua música “blandeia”
A emoção do morador!

E a garoa galopeada
Faz barulhos na varanda
Pra acordar com a sarabanda
O aconchego da morada.

E a cantiga aviolada
Vem de lá de etérea banda,
Retoçando na ciranda
Da garoa galopeada.

O seu pinho, companheiro,
Bate igual essa garoa…
A cantar, se faz lagoa,
Dentro d’alma do posteiro.

Lá de cima a chuva branca
Vaga em brumas e se perde
Pelo campo imenso e verde,
Nas cantigas que ele canta.

E a viola da garoa
Bate a música no zinco,
Como um pássaro longínquo,
Vem trazer lembrança boa.

Feito Um Cavalo de Tiro – Fabiano Bacchieri e Raineri Spohr


11º Acampamento da Canção Nativa – Campo Bom – RS – 2013.

FEITO UM CAVALO DE TIRO

Letra: Helvio Casalinho e Eduardo Muñoz
Música: Raineri Spohr e Pablo Estima
Intérpretes: Fabiano Bacchieri e Raineri Spohr

Quando a vida nos leva
Feito um cavalo de tiro
A alma deixa os pertences
Campeando o ar que respiro…
Coragem pra ser julgado
Por quem mal sabe a razão
Nos cascos as ferraduras
Abrandam pedras do chão…

De certo aquele rincão
Seria pouso pra o mate
Ainda que algum embate
Morasse dentro de mim…
Como deixar a semente
Por um sonho mais distante
Sem saber se logo adiante
Seria tão certo assim!

Quem traz consigo um amigo
Seja de tiro ou por diante
Sabe que a força de um taura
Às vez não é o bastante…
Que até na folga do lombo
Pra não perder o tenteio
A cavalhada de muda
Vai “repontando” o ponteiro!

A tropa não sente o peso
Que molda a lã do baixeiro
Não masca freio e poeira
Nem vai costeando os “matreiro”…
Por isso que não se entrega
Mesmo na longa jornada
Escreve sua trajetória
Só num sentido da estrada…

Quem muda o pingo da encilha
Quando no más se desgasta…
Transforma em gesto de adeus
O que o olhar não disfarça…
E se apercebe no tempo
Ninguém vai longe sozinho
Por certo cansa o cavalo
Sem ter findado o caminho!!!

El Aire de Correntino – Lucio Yanel


14ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2006.

EL AIRE DE CORRENTINO

Letra: Lucio Yanel
Música: Lucio Yanel
Intérprete: Lucio Yanel

El aire de correntino
Tiene este niño que Dios me dio,
Como para no tenerlo si tiene el cielo de ITUZAINGÓ.
El aire de correntino tiene este niño que he de abrigar,
Si hasta su llanto primeiro tiene entrevero com SAPUCAY.

Cuando este niño camine
Voy a enseñarle el sendero
Ese que bordea el estero
El lugar donde nací
Alli a de encontrar un pueblo
Con colores chacareros
Y los paisanos puebleros
Le han de enseñar su Raiz

Bailanta do Tio Flor – Grupo Nativo Lichiguana


1ª Coxilha Nativista – Cruz Alta – RS – 1981.

BAILANTA DO TIO FLOR

Letra: ELton Saldanha
Música: Elton Saldanha
Intérprete: Grupo Nativo Lichiguana

Vamos embora, ver onde chora o cantor.
O pó levanta na bailanta do tio Flor!

Miro no espelho lá da cacimba,
Firmo o cabelo na brilhantina,
Vou me benzer na água benta da cantina.

Vamos embora, ver onde chora o cantor.
O pó levanta na bailanta do tio Flor!

Bombacha nova, par de botas de pelica…
Tomo uma pura, só pra ver como é que fica.
Sou cantador de flor, que não se achica.

Vamos embora, ver onde chora o cantor.
O pó levanta na bailanta do tio Flor!

Ouço, de longe, um sapucay…
São os taipeiros das barrancas do Uruguai.
E a gaita velha num “faz que vai, mas não vai”!

Vamos embora, ver onde chora o cantor.
O pó levanta na bailanta do tio Flor!

De relancina, maneio um olhar fujão,
E desempenho na polca de relação.
Quero prosear com a filha do patrão!

Vamos embora, ver onde chora o cantor.
O pó levanta na bailanta do tio Flor!

Vanerão do Sonhador – Delci Taborda


4º Grito do Nativismo – Jaguari – RS – 1990.

VANERÃO DO SONHADOR

Letra: Helena Fontana
Música: Delci Taborda
Intérprete: Delci Taborda

Quem não arrisca não ganha!
Quem não joga não arrisca!
Vou empatar uns trocados
Pra ver se a sorte belisca.

Se um dia eu pego ela
Numa volteada, de jeito,
Mando a pobreza pra os quintos
E na vida me endireito.

Vou botar fogo nos trapos
E me pilchar a capricho,
Abandono a caipirinha
E não jogo mais no bicho.

Me mudo pra um casarão
Com piscina e muita flor
E contrato um motorista
Pra me chamar de doutor.

Sonha, Marcelino, sonha…
Que sonhar não tem imposto!
O povo sonha acordado
Porque vive apavorado com a corda no pescoço.

Pra os parentes mais adentos
Eu até vou dar uns cobres…
Vai ser só pena que voa
E não vai ter china pobre!

Quero sobra e água fresca
E nunca mais pão com banha,
Agulha só pra costura,
Churrasco só de picanha!

Só não vou trocar a velha
Porque esta é das confianças
E o meu ‘fuca’ vou deixar
Pra brinquedo das crianças.

Eu não perco a esperança
De me abraçar com as pelegas,
Por isso vivo sonhando
Enquanto a sorte nao chega.

Um Chasque na Madrugada – Ita Cunha


20ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2009

UM CHASQUE NA MADRUGADA

Letra: Osmar Proença
Música: Rogério Melo e Edilberto Bérgamo
Intérprete: Ita Cunha

A fumaça do branquilho
Manda um chasque pra boieira,
Me convidando que venha
Acordar a cozinheira,
Que venha tomar uns mates,
Sentindo o gosto da aurora
E ver suas irmãs choronas
Nos papagaios da espora.

Pode pegar um atalho
No canto do garnizé,
No rumo dos pirilampos,
No terreiro a bola-pé,
Que venha luzindo a prata
Nos arreios da esperança
E ao passar pelo potreiro
Já acorde ‘as vaca mansa’.

Este chasque fogoneiro,
Que se apaga na distância,
É do feitio da minha gente
Que ao madrugar diariamente
Conserva os rituais da estância.

Se não for pedir demais
Neste chasque sem floreio,
Aproveitando a bolada,
Toque os cavalos de arreio!
Pode ficar pelo posto
Até o clarão do arrebol
E se apagar sorrateira
De contraponto com o sol.

Eu penso que a estrela D’alva,
Rainha da madrugada,
Seria a alma xirua
De alguma china encantada
Que vem fletar com os parceiros
De mate e de nostalgia
Na hora em que a estância ‘véia’
Abre ‘as cancela’ pra o dia.

Santo Chão – César Oliveira e Rogério Melo


12ª Estância da Canção Gaúcha – Estância das Estâncias – São Gabriel – RS – 2004.*

SANTO CHÃO

Letra: Gaspar Machado
Música: César Oliveira e Sergio Medina Mércio
Intérpretes: César Oliveira e Rogério Melo

Campeio a volta do meu ruano uma trincheira
A meia tarde quando o sol procura o poente
E as sesmarias que recorro o dia a dia
Compadecidas vão boleando a alma da gente

Essas legendas que meus olhos rastreadores
Aquerenciaram na soleira do galpão
De “Dilhermando” ao “Arvoredo”, por “São Pedro”
Quanto segredo do índio pobre meu irmão

De três ontonte uma saudade caborteira
Igual ao ruano que por nada ainda se casca
Nega o estribo e lá se vai vendendo as garras
Pra alguma farra de cordeona que se arrasta

Se Deus quiser co’a lua fora eu sigo a vida
Da estrela guia que se passa ao “Deus dará”
Amanhãzinha quando o galo acorda o mundo
Naquele fundo de alma nova eu vou cantar

O chão é santo e santa é a terra que me abraça
Como quem laça algum torrena campo a fora
Se vem na cincha para os campos da querência
Pela tenência do cantar das minhas esporas

Quando a Lua Faz Costado – Marcelo Oliveira


5º Cante Uma Canção em Vacaria – Vacaria – RS – 2006.*

QUANDO A LUA FAZ COSTADO

Letra: Fernando Soares
Música: Marcelo Oliveira
Intérprete: Marcelo Oliveira

De longe vem o brilho das estrelas
Que vertem destes olhos para os teus,
Pois choram quando o vento firma o rastro
E baila junto à flor de um sonho meu.

A brisa que carrega a madrugada,
Com lágrimas de orvalho pelo tempo,
Campeia na saudade, campo afora,
O cheiro do setembro ao relento.

Na hora em que o silêncio faz costado,
Trazendo pra minha volta a solidão,
Podemos mirar juntos, nossos olhos,
Na lua que aproxima o coração.

Parece que escuto, ao longe, um pranto…
Quem sabe vem da astilha camboneada,
Pois solta, da sua alma de tapera,
Lamentos de não ser mais tua picada.