Da Tirana Chamarrita – Quinto Oliveira


7º Festival de Música de Gramado – Gramado – RS – 2017.
Composição premiada com o Terceiro Lugar.

DA TIRANA CHAMARRITA

Letra: Diego Müller e Leonardo Borges
Melodia: Quinto Oliveira
Intérprete: Quinto Oliveira

Entro a trote no povoado silbando una chamarrita…
Que há muitas luas não vejo das flores, a mais bonita!…
Trago junto, na garupa, um regalo – não de amigo –
Contrabandeado de lejos: um selim, por muito antigo!

Nem bem eu chego à porteira e o rancho se faz mensão,
Com aromas sensitivos dos jasmineiros do oitão!…
No jaleco, en el bolsillo, meu coração se disfarça
Nuns verso, mal rabiscado, feito em folha de astraça!

Chamarrita… Chamarrita… É com a voz de la inspiración
Que te dou, nesta toadita, las riendas del corazón!…
Chamarrita… Chamarrita… Meu olhar quer ver o teu:
Por certo o brilho da lua, nos teus olhos, a noite esqueceu!

Brilhos preenchem meu rosto por ver o rancho e a janela…
– Pachola esbarro o gateado, só pra me mostrar pra ela!…
Mas vejo assim, no relance, um redomão palanqueado
Atrás da sombra do rancho, muy bien tosado e encilhado!…

Volto o cavalo – no más – maldizendo e renegando
Ao ver a prenda y otro gaucho, sob a ramada, mateando!…
– Se esfarelou todo barro do rancho que em sonhos ergui…
E a tarde findou balconera… que até o selim eu perdi!

Tirana… Tira… Tirana… que esta negaça me leva:
Atorou a trança– minha bela – com ganas de tão maleva!…
Tirana… Tira… Tirana… na mala suerte da vida
Quem sabe a copa de vino cure a desdicha sentida!?…

*Desdicha: Desventura, fracasso, infelicidade.

Caminhador – André Teixeira


10º Canto Missioneiro da Música Nativa – Santo Ângelo – RS – 2017.
Composição premiada com o Terceiro Lugar.

CAMINHADOR

Letra: Rogério Villagran
Melodia: André Teixeira
Intérprete: André Teixeira

Venho de longe e pra onde vou, faltam distâncias,
Por isso estendo meu mouro pampa no corredor…
Poeira e sereno, noites e dias, sons e fragrâncias,
Que me sustentam dono de mim e caminhador…

Quando a madrinha bate o cincerro puxando a frente
As minhas esporas cantam suas coplas junto ao sonido
Que se levanta marcando o passo, fazendo a gente
Viver, por gosto, coisas de um tempo ainda não vivido…

Com a minha tropilha trago “entabladas” tantas saudades,
Deixo pra trás o que não serve pra os meus arreios…
Largos caminhos só me aproximam das minhas vontades,
Pois o que fica não se questiona por que não veio!

De cruzar caminhos me aquerenciei nestas lonjuras,
Tenho um rancho na alma que abriga o que é meu por onde for…
Não vou descansar enquanto o sentido da minha procura,
Mandar na razão de eu ser o que sou… e caminhador!

Deus me acompanha nestas cruzadas mostrando o rumo,
Tenho a minha fé, sigo por ela pois acredito
Que não preciso buscar atalhos pra achar o prumo,
E nem tão pouco sentir receio de andar solito.

Porque a verdade que o coração bota pra fora,
Quando alma adentro pulsa uma gana de ser liberto,
Mostra a certeza que estou chegando e, não indo embora,
E diz aos meus que eu ando longe, mas estou perto.

Mas quando um dia os meus anseios forem potreados,
E eu encontrar pasto e aguada pra o que desejo,
Vou sombrear o riso d’uma morena do meu agrado,
Pra que o mundo saiba que apenas por ela eu serei andejo.

Baile das Nega Toro – Elton Saldanha


10º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 1994.
Composição que levou o prêmio de Canção Mais Popular.

BAILE DAS “NEGA TORO”

Letra: Elton Saldanha
Música: Elton Saldanha
Intérprete: Elton Saldanha

Foi ali no Itaqui que eu afinei a minha goela
E lá pras bandas da capela mandavam “espichá” couro
E eu ia “campeá” namoro “pelas madrugada fria”
E me “aloitá” com “as guria” nos baile das “Nega Toro”

Quem conhece, não esquece daqueles bailes de estouro
Que dava um fim de semana no rancho das “Nega Toro”
A negra grande, a mais forte, arisca que nem coatiara
Cuidava a porta do rancho com um pedaço de taquara

O gaiteiro Ibirocai já tocava com preguiça
E a negrada se acrocava que nem corvo na carniça
E lá pela madrugada um “loco” gritava rindo
Vamos se acordar negrada, porque a policia vem vindo

No chará chá chá chá chá, no chará chá chá chá chá
No chará chá chá, reboleando a nega vai
No chará chá chá chá chá, no chará chá chá chá chá
No chará chá chá, vem cá negrinha do pai

E quem chegasse de fora naquele pretume bruto
Ia pensar que as morenas tavam bailando de luto
Tinha umas neguinhas nova outras pretas temporonas
Cada mais preta e retinta do que cabo de cambona

Lavavam roupa pra fora, benziam alma do povo
Num dia faziam baile, no outro faziam de novo
O Rio Grande, “Nega Toro” se apeava no teu portão
Pra tomá” um passe com canha e se aloitar num vanerão.

A Cruz e a Tapera – Matheus Leal


16ª Sapecada da Canção Nativa – Lages – SC – 2008.

A CRUZ E A TAPERA

Letra: Otávio Severo e Osmar Proença
Música: Matheus Leal
Intérprete: Matheus Leal

A Cruz faz vigília na boca do passo
Ao andante que cruza de marcha batida
Tapera de campo, de sombra estendida…
Guardando segredos nas ruínas e traços.

O rancho solito voltou-se pra terra
Aos pés de outra cercas de mouras calçadas
Porém a tapera “parece habitada”
E sua penúria de sobra de guerra

Ficaram receios ao passo da cruz
Enviando risadas no ermo da grota
Se olvidou sete palmos do chão, a Siá Noca…
E sua alma vagueia num vale sem luz.

Conhecida de todos – a velha das rezas –
Com mãos de bruxeira e crenças divinas
Benzedeira de esporas dos índios das crinas
Que arriscavam a vida nos baguais malevas

Morreu quando a alma fugiu-lhe de casa
No aceso da lua assombrando as paragens
Daquelas que o medo enredou nas ramagens
Quando o vento, um fantasma tem garras e asas…

“Hay” quem jure verdades com seus arguentos
E ganhou o rincão a tapera assombrada
Na invernada do passo da cruz encravada
Os campeiros recorrem de olhos atentos.

… A Cruz faz vigília na boca do passo.

Vende-se Uma Carreta no Rincão da Vista Alegre – Edilberto Bérgamo


20ª Estância da Canção Gaúcha – São Gabriel – RS – 2013.

VENDE-SE UMA CARRETA NO RINCÃO DA VISTA ALEGRE

Letra: Diego Müller e Rodrigo Bauer
Música: Edilberto Bérgamo
Intérprete: Edilberto Bérgamo

Corre solto nos bolichos que uma carreta está à venda,
Que um índio da Vista Alegre anda de rumo cambiado…
Quem carreteou a esperança e a vida por encomenda
Vende um pedaço da alma num jornal classificado!

É como vender a história, a vocação, o atavismo…
E renascer mutilado de tudo o que já se foi…
Há muito ficou na poeira, com os ventos do modernismo…
E vê o asfalto comendo os cascos dos velhos bois!

“São Gabriel das carretas!” – Ficou o nome e o legado:
Não há rodados na estrada, nem bois cortando a distância…
Os gemidos das carretas se perderam, junto à poeira,
E o velho grito de “eira” apenas deixou lembrança!

Quem nasceu na Vista Alegre não teme tempo ou desgosto:
Há de encontrar outro ofício pra continuar a contenda…
Mas não esconde que o pranto desceu nas vergas do rosto,
Naquele dia encardido em que pôs a carreta à venda!

De seu rancho sem reboco, à luz de velhas lembranças,
Um carreteiro olha à estrada, feito um pássaro sem asas…
– As buzinas já não gemem… hoje lhe resta a esperança…
…E uma carreta ancorada, pra sempre, em frente das casas!

O que reserva o futuro pra quem viveu carreteando,
Fazendo frete e quitanda, com chuvaradas e estios?…
– Ouve o ranger do silêncio, que segue lhe apunhalando…
E enxerga a carreta encher-se, cada vez mais… de vazio!!!

Um Homem, Um Cavalo e Um Cachorro – Luis Fernando Baldez e Ricardo Tubino


40ª Califórnia da Canção Nativa do RS – 2017.
Composição premiada com a Calhandra de Ouro – Primeiro Lugar na Linha de Manifestação Rio-Grandense.

UM HOMEM, UM CAVALO E UM CACHORRO.

Letra: Silvio Genro
Melodia: Silvio Genro
Intérpretes: Luis Fernando Baldez e Ricardo Tubino

Vai um homem de a cavalo e um cachorro no costado…
-Eis o pago retratado nesses seus três personagens!
Na mesma cena de viagem e quase despercebidos,
Vão três vultos envolvidos na solidão da paisagem.

Que pelo tinha o cavalo… Que raça tinha o cachorro…
Qual era o nome do homem… -quem se preocupa em saber?
São detalhes pra esquecer, pois nesses tempos atuais,
Quase nem importa mais a gente se conhecer.

Num mundo que valoriza,
Mais os números que os nomes,
Que ignora os que têm fome
E a vida virou do avesso.
Se cada qual tem seu preço…
-Quê valor tem um cavalo,
Um cachorro a acompanhá-lo,
E um homem que nem conheço?

Vai um homem, um cavalo e um cachorro, pago afora…
Carregando suas histórias num cenário tão sereno,
Quem diz que o mundo é pequeno nunca sentiu sua presença
Esquecida pela ausência de um simples gesto de aceno.

Quem saberá de onde vêm e o rumo pra onde vão?
Ninguém lhes dá atenção em meio a seus compromissos…
Alheio a tudo isso vai um homem de a cavalo,
E um cachorro pra ajudá-lo em seu solitário ofício.

Velório do Juca Torto – Cristiano Quevedo


19ª Vigília do Canto Gaúcho – Cachoeira do Sul – RS – 2008.

VELÓRIO DO JUCA TORTO

Letra: Anomar Danúbio Vieira
Música: Rogério Melo
Intérprete: Cristiano Quevedo

Fui no velório do querido “Juca Torto”
Eu era íntimo do morto, “pero mucho más” da viúva!
Babava água, pesos de raio e trovão.
Entrei de chapéu na mão, poncho encharcado da chuva.

Tomei um trago de canha meio sem jeito…
É que tenho esse defeito de gostar de coisa triste,

E quem resiste a um velório com cachaça,
Com rapadura, bolacha e umas “véia” pra dizer um chiste?

Varei a sala arrastando as nazarenas…
Corris os olhos na morena, chorando embaixo de um véu,
Tinha um gaiteiro, vaqueano das horas brabas,
Que floreava uma “pianada”, pedindo as bençãos pro céu.

Não chora linda,
Não chora minha querida,
Porque a saudade é um mal que o tempo cura,
Não chora linda,
Não chora minha querida
Que nessas voltas da vida
A gente acha o que procura.

Eu tinha um lenço, bordado com as “inicial”
E ofereci “muy” cordial, tapado de sentimento
Não te preocupa que os amigos são pra isso…!
Fica aqui meu compromisso – te amparar neste momento.

vendo a quietude que negaceava o ambiente
Fui pra o lado de um parente, falando o que era preciso
Me dêem licensa, que eu conhecia o finado
Sei que ia querer o coitado, que eu cantasse de improviso.

“Sentido, eu faço este verso
Em respeito ao falecido
Que era muito meu amigo
Desde os tempos de guri,
Se agora me encontro aqui
Pra te dizer por inteiro
Pode ir-te embora parceiro
Que a viúva eu cuido pra ti”.

Um Grito Chamando a Ponta – Rogério Villagran


4ª Sapecada da Serra Catarinense – Lages – SC – 2004.

UM GRITO CHAMANDO A PONTA

Letra: Rogério Villagran
Música: Rogério Villagran
Intérprete: Rogério Villagran

Se as pedras tivessem vida, talvez as taipas falassem
De coisas que só Deus sabe mas, por segredo, não conta
Se o vento ao menos cantasse ao invés de assoviar triste
Alguém escutava o eco de um grito chamando a ponta

Talvez se o sinal dos cascos não tivesse se apagado
A gente imaginaria o tamanho da morruda
Talvez um sinal de fogo nos diria quantos eram
Quantas mulas e cargueiros, quantos cavalos de muda

O que se sabe é que as copas dos sombreiros de abas largas
Quinchavam capas e ponchos nos dias de viração
E nestes dias os olhos colgavam em suas retinas
Léguas de liberdade e sobras de solidão

O que se sabe é que as ânsias de quem vinha na culatra
Tinham a mesma valia dos que faziam o fiador
E cada dia de marcha logravam um eito de vida
E as rondas volteavam sonhos do fundo de um corredor

Pena que o tempo estourou e os que viviam das tropas
Ficaram na polvadeira tentando encontrar o rastro
De quando voltavam ao rancho com o peçuelo forrado
E uma metade de chibo entre os pelegos e o basto

Mesmo assim eu sei que o tempo não enlota e nem refuga
Bois e mulas que o destino faturou de cada homem
Pois se me sobra um cincerro vez por outra retinindo
Saberei que minha alma jamais morrerá de fome

Velório de Campo – Robledo Martins


24º Reponte da Canção – São Lourenço do Sul – RS – 2008.

VELÓRIO DE CAMPO

Letra: Gaspar Souza Silva
Música: Robson Garcia
Intérprete: Robledo Martins

Vestiu-se a porta de um pano branco
chegou a tristeza no rancho
sem avisar, se acampou.

Um ar parado na tarde
tomou conta da morada
silenciou a cachorrada
custou o sol se esconder.

Vestiu-se a noite de luto
e um silêncio absoluto
roubou a cena das falas
que quatro velas clareavam
o penar de cada um.

No galpão os conhecidos
vizinhos do falecido
golpeavam um trago escondido
lembrando das gauchadas
costela gorda nas brasas
e uma saudade sangrando
a despedida salgada.

Segue lenta a carreta
sobre a mesa a silhueta
daquele negro caixão
final de um homem de campo
plantado no campo santo
a sete palmos do chão.